Mulheres na arquitetura: a autodidata Lotta de Macedo Soares

Sem formação formal, ela foi uma das grandes arquitetas brasileiras, responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo, o maior aterro urbano do mundo

(Reprodução/Instituto Lotta)

Na série Mulheres na Arquitetura, vamos colocar em pauta mulheres que possuem importantes feitos arquitetônicos no Brasil e no mundo. Acompanhe aqui.

Maria Carlota Costallat de Macedo Soares nasceu em 16 de março de 1910, em Paris, mas foi criada no Rio de Janeiro, para onde veio aos dois anos de idade acompanhada do pai José Eduardo de Macedo Soares, jornalista, da mãe e da irmã. Foi aqui que Lotta de Macedo Soares, como ficou conhecida, ganhou destaque na arquitetura, urbanismo e paisagismo.

Aterro do Flamengo (Alicia Nijdam/Flickr)

Lotta não teve uma formação formal, foi autodidata. Frequentou aulas com Cândido Portinari e era amiga de artistas e escritores, além de ser uma leitora “furiosa”, como dizia. Lotta chegou a residir em Nova York e lá frequentou cursos no Museu de Arte Moderna. No início da década de 1960, já tendo sido reconhecida como arquiteta autodidata, foi convidada pelo então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, a trabalhar no governo do estado. Foi quando ela começou a propor mudanças na Praia do Flamengo que acabaram resultando no Parque do Flamengo, o maior aterro urbano do mundo. Para participar do projeto, Lotta convidou o paisagista Roberto Burle Marx e o arquiteto Affonso Reidy.

Casa Samambaia (Leonardo Finotti/Arquitetura & Construção)

Outra grande obra da arquiteta foi a Casa Samambaia, construída entre 1951 e 1953 em parceria com o então jovem arquiteto carioca Sergio Bernardes (1919-2002). “Quando herdou da mãe a propriedade em Samambaia [bairro de Petrópolis] escolheu a parte mais próxima da mata. Começou a planejar uma construção ultramoderna no meio do ambiente rústico. Nem de acesso rodoviário dispunha. Era mato. Um dos atrevimentos típicos de Lotta”, conta Carmen L. Oliveira, autora de Flores Raras e Banalíssimas, livro sobre o relacionamento entre a arquiteta e a poetisa americana Elizabeth Bishop que inspirou o filme Flores Raras, de Bruno Barreto, lançado em 2013.

Imagine uma mulher, nos anos 50, tentando convencer os operários a erguer aquela morada com jeito de galpão, comandando implosões, supervisionando cada detalhe. “O telhado de grades entrecruzadas só foi terminado quando Lota explicou a eles que era para o Carnaval, dali a dois meses”, revela Carmen. Telhado, aliás, pioneiro: pela primeira vez no Brasil, uma cobertura metálica treliçada com telhas de alumínio ondulado era usada numa residência. E de onde viria essa ideia? “Quando Lotta conheceu Sergio, ele finalizava o sanatório de Curicica, no Rio de Janeiro, dedicado a doentes de tuberculose. Ela ficou louca: queria um lar com aquela estrutura de pavilhão”, afirma a pesquisadora Kykah Bernardes, última esposa do arquiteto. Mais do que a estrutura, Lotta desejava a mesma liberdade de espaços e a integração com o verde daquele projeto.

“Na casa de Lotta, tudo é para você estar dentro e fora. A casa é, e sempre será, um lugar de acerto visual, em que você faz o enquadramento da vista que o cerca”, declarou Sergio em depoimento ao arquiteto João Pedro Backheuser, em 1997. Os vidros que deixam a paisagem entrar vieram da Bélgica. Entre os outros materiais, estão tijolos e pedras – estas, do próprio terreno.

Casa Samambaia (Leonardo Finotti/Arquitetura & Construção)

Foi nesta casa que Lotta e Elizabeth Bishop viveram – elas foram casadas de 1951 a 1965. Ali, a poetisa inventou poemas e ganhou o Prêmio Pulitzer, em 1956. “Quando ela visitou Samambaia, em 1951, a casa estava nas fundações. A despachada Lotta resolveu alterar a ordem da construção, realizando primeiro uma acomodação para ela e sua amada. Fez ainda um estúdio para Bishop, lá embaixo, distante da folia da obra”, diz Carmen. As duas viveram ali até 1961. Desde 1977, Samambaia pertence a uma empresária carioca, cuidadosa em preservar sua elegância. “Quando a encontrei, senti que era algo que eu havia procurado toda a vida”, revela.

Em 1967, Lotta foi a Nova York reencontrar Elizabeth. No entanto, a poetisa encontrou Lotta caída na cozinha com um vidro de antidepressivos na mão. Dias depois, Lotta faleceu.

Obra

Casa Samambaia, Petrópolis (RJ), Brasil

Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro (RJ), Brasil

 

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