100 anos de Artigas

Centenário de nascimento de uma das mais importantes mentes da arquitetura paulista traz à tona a carga política e histórica que deu ao traço do arquiteto a força de uma revolução.

João Batista Vilanova Artigas tinha pouco mais de 30 anos quando projetou o edifício Louveira, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. O edifício de dois blocos que tem as áreas comuns transpassadas por caminhos que se integram com a praça pública em sua volta levou anos para ser aprovado. “Não havia legislação na época que desse conta da proposta do Artigas”, conta a historiadora Rosa Artigas, filha do arquiteto, que completaria seu primeiro centenário no ano que vem. Quem mora lá hoje sabe ter sob os pés uma construção pioneira em quase tudo que propõe. São os próprios moradores que abrem mão das grades de proteção entre as passagens da rua para o prédio. Mas há 70 anos ninguém queria saber de morar lá. “Foi difícil vender os apartamentos, que dispensavam as hierarquias tradicionais, como o ocultamento das áreas de serviço e outras heranças da arquitetura rural paulista”, conta Rosa. Ao fazer a integração do jardim privativo do condomínio com a praça Vilaboim, a construção coloca em prática a ideia de espaço público tão estimada pelo arquiteto. O projeto traduz com suas janelas de correr e cores primárias a reflexão de Artigas, que encontrou o ápice na construção da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU, começada a ser erguida em 1965, um ano depois do golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil – ele levou dez anos para colocar os pés no projeto que o consagrou como uma das mais importantes mentes da cada vez mais redescoberta arquitetura paulista. Para compreender a extensão das obras do arquiteto, portanto, é inevitável levar em conta as dimensões sociais e políticas da época. Essa é a premissa do livro João Batista Vilanova Artigas – Elementos para a Compreensão de um Caminho da Arquitetura Brasileira, 1938-1967. Na obra, o autor, Miguel Antonio Buzzar, faz um recorte temporal preciso para explicar a importância de Artigas na reflexão sobre a arquitetura paulista em uma época em que “o desenvolvimento industrial levava às transformações urbanas e, de forma sincronizada, às mudanças na divisão de trabalho”. Apesar de trabalhar de maneira híbrida, com influências do americano Frank Lloyd Wright e do franco-suíço Le Corbusier, há um claro tom pedagógico nos projetos do arquiteto. Para Buzzar, ao contrário do que era visto nas obras críticas de Artigas, a forma “perfeita” da escola carioca era obtida em função de muito artifício e não revelava o processo, mas sim dissimulava as dificuldades encontradas pelos arquitetos na época. Enquanto isso, nas obras “do líder da escola paulista o ato de cindir deu-se mostrando justamente o conteúdo da construção, como ela era concretizada, explorando-a em todos os sentidos”, afirma o autor. Formado engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica da USP, em uma época que não havia escolas especializadas no assunto, Artigas acreditava ser essencial impulsionar a reflexão na arquitetura. Se a Poli não propiciava um maior debate artístico e cultural, o arquiteto buscou essa vertente no curso de modelo vivo na Escola de Belas Artes, em 1936, onde fez contato com vários pintores, como Alfredo Volpi. Mas foi a ligação com o Partido Comunista Brasileiro que determinou a trajetória de suas obras e o levou ao exílio no Uruguai após o golpe de 1964. Militante do PCB, Artigas tinha um discurso mais impetuoso do que o de Niemeyer – também comunista. Segundo Buzzar, o arquiteto moldou suas atividades levando em consideração a economia, a política e a cultura do período, reforçando o nacionalismo e iniciando uma crítica cautelosa à produção arquitetônica brasileira e ao movimento internacional. Em entrevista ao jornal carioca Diário da Noite, em 1945, ele afirmou que “a arquitetura moderna, tal como a conhecemos, é uma arma de opressão, arma da classe dominante, uma arma dos opressores contra oprimidos”. Antes que os economistas percebessem que o Brasil não era economicamente dual, mas desigual e associado, a arquitetura de Artigas já representava essa realidade. Espere ouvir bastante sobre o arquiteto em 2015. O livro de Buzzar apenas antecede o centenário de nascimento do arquiteto, que morreu em 1985, aos 69 anos. A celebração dos 100 anos deve incluir um site oficial, com acervo digitalizado da trajetória profissional e pessoal do arquiteto, mostras e um documentário intitulado Artigas: As Cidades Como as Casas, as Casas Como as Cidades, cinebiografia com roteiro de Laura Artigas, sua neta.

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