Entrevista Alain de Botton sobre casas e aspirações

A beleza é uma questão subjetiva ou existem parâmetros concretos? Gosto se discute? Questões como essas são analisadas pelo filósofo suíço Alain de Botton.

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Por que relacionar arquitetura e felicidade?

Eu ficava perplexo ao perceber como certas cidades e construções têm uma beleza tão inacreditável a ponto de mudar o modo como olhamos para as coisas. Por outro lado, a maior parte dos espaços que habitamos nos deixa para baixo. Queria descobrir por que algumas obras são maravilhosas e outras frustrantes. Quando comecei o livro, arquitetos amigos meus disseram: “Você não pode falar de beleza como algo objetivo. Está tudo nos olhos de quem vê”. Mas isso não me fez desistir de tentar dar sentido à arquitetura. Afinal, há vários consensos sobre o gosto. Considere o turismo, por exemplo. Muitos concordam que Veneza e Amsterdã são bonitas. Poucos vão espontaneamente passar o feriado em Frankfurt ou Detroit. Arquitetura e decoração fazem parte do que pode nos fazer felizes, porém poucos se dão conta disso. Meu livro reflete sobre o tipo de construção que devemos erguer – o que é uma pequena contribuição para uma questão maior: como podemos ser felizes?! É destinado a qualquer um que tenha olhado para um monstruoso prédio de concreto e se perguntado: “Por que afinal construíram isso?”

Precisamos da beleza para viver?

A beleza exerce um enorme papel em nosso humor. Quando chamamos uma casa de bela, o que realmente estamos dizendo é que gostamos do modo de vida que ela sugere. Tem uma atitude pela qual somos atraídos – se fosse transformada em uma pessoa, gostaríamos dela, com certeza. Seria ótimo que pudéssemos permanecer sempre com o mesmo humor, independentemente do lugar em que nos encontramos. Infelizmente, somos vulneráveis às mensagens codificadas que emanam dos ambientes. Isso ajuda a explicar nossos sentimentos em relação à arquitetura e à decoração e também nos ajuda a decidir quem somos. Claro, a arquitetura sozinha não nos transforma em seres felizes. Basta lembrar das insatisfações que nos ocorrem mesmo em ambientes idílicos. Alguém pode dizer que a arquitetura nos sugere um humor que não somos capazes de captar quando estamos internamente perturbados. Mas seus efeitos podem ser comparados ao tempo: um dia lindo pode mudar nosso estado mental – e as pessoas se dispõem a sacrifícios por um clima ensolarado. Entretanto, sob o peso de grandes problemas românticos ou profissionais, não há céu azul ou moradia incrível que nos façam sorrir. Daí a dificuldade de tentar transformar a arquitetura numa prioridade política: ela não possui as vantagens da água limpa ou de um suprimento de comida. E mesmo assim permanece vital.

Afinal de contas, gosto se discute?

Gastar tempo discutindo sobre um sofá está longe de ser trivial. Isso porque um móvel pode sugerir todo um modo de vida, uma atitude diante das coisas. A discussão sobre o que é significativo é muito comum nas lojas de móveis. Diante de um sofá de ângulos retos e design italiano, o homem pode dizer: “Adoro”. Na realidade, ele é atraído pelas qualidade de ordem, lógica e racionalidade que a peça lhe sugere. Enquanto isso, sua mulher adoraria trazer para o casamento a doçura e o romantismo que detecta numa peça do século 18. As brigas que se desenrolam nas lojas são bastante lógicas: muito ali está em jogo. Não devemos nos sentir envergonhados de sair com alguém por causa de seu gosto por sofás.

O que é uma bela construção para você?

Adoro o modernismo do século 20. Cresci na Suíça, um país de tradição na arquitetura moderna. Muitos dos melhores arquitetos do mundo vieram de lá e isso se reflete nas casas. Me lembro de vir morar na Inglaterra, aos 12 anos, e ficar horrorizado com a arquitetura inglesa. Havia uma obsessão pela aparência antiga das coisas. Mesmo os projetos recentes eram feitos de forma a parecer antigos. Além disso, os padrões de construção eram muito ruins. Foi nessa altura que comecei a pensar sobre a arquitetura. Pensei sobre como diferentes lugares podem afetar o humor. Uma casa suíça vai fazer você se sentir de uma maneira, e uma inglesa, de outra. Numa igreja, você tende a ficar pensativo, num supermercado, estupefato e confuso. Alguém que pense seriamente sobre as grandes questões da vida vai em algum momento cruzar com a arquitetura porque o lugar onde moramos determina em que acreditamos e como nos sentimos.

O que torna uma arquitetura elegante?

A maioria das mais famosas construções do mundo é altamente harmônica – proporcional, simétrica e equilibrada. Parece que precisamos de disciplina e ordem na arquitetura, assim como as crianças precisam de regras familiares, como hora de dormir e comer. Necessitamos que os ambientes que nos rodeiam ajam como guardiães da calma e dos sentidos. Porém nosso amor pela ordem não é sem limites, já que reconhecemos o tédio na fachada dos grandes prédios de escritório. A admiração acontece quando a ordem aparece acompanhada de complexidade, ou seja, quando sentimos que uma variedade de elementos foi organizada com ordem – janelas, portas e outros detalhes estão entrelaçados em um esquema que consegue ser ao mesmo tempo simples e misterioso. Assim como só percebemos o sentimento de segurança na presença do perigo, apenas num prédio que flerta com a confusão é que apreendemos a necessidade da ordem.

Há a tendência em ver a casa como um refúgio para os problemas. Como você vê essa mudança?

O gosto por decoração tende a dizer muito sobre o que as pessoas sentem que está faltando em sua vida. Por exemplo, eu moro numa casa muito branca e calma. As pessoas podem erroneamente acreditar que sou um indivíduo puro e relaxado. É justamente porque não sou nada disso que sou atraído por esse estilo. Outro dado: muita gente hoje deseja viver em chalés no campo. E não são fazendeiros. São habitantes das cidades desesperados para encontrar algo tradicional e orgânico em sua vida ocupada e tecnológica. Pode-se dizer que as pessoas decoram de acordo com o que aspiram ser, em um sentido mais profundo. Hoje, damos tanta ênfase ao conforto porque a vida está muito dura.

Nas cidades brasileiras, os prédios modernos perdem espaço para construções que trazem de volta adornos neoclássicos. Como você vê isso?

Conflitos de gosto refletem as diferenças de perspectiva das pessoas. Alguém que tenha ganhado muito dinheiro e quer impressionar a vizinhança pode desejar construir um palácio neoclássico. Um intelectual de esquerda prefere um cubo modernista de linhas retas. Conflitos são inevitáveis em um mundo no qual há diferenças de ambição.

Você diz que as casas falam. O que elas estão dizendo hoje?

As construções nos falam dos valores de uma geração. Muitas hoje falam do poder dos negócios e da tecnologia. As casas particulares tendem a mostrar o poder pessoal e a riqueza – ou pobreza. Isso é o principal. Há 50 anos, algumas contavam histórias de socialismo e ideais de esquerda. Há 100 anos, traduziam os modos de vida da aristocracia.

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