Morre, aos 96 anos, o artista polonês Frans Krajcberg

Relembre a trajetória de vida do escultor, pintor, artista e fotógrafo, que se mudou para o Brasil em 1948

Nascido em Kozienice, Polônia, em 1921, mudou-se para a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, quando sua família foi morta nos campos de concentração

 (Carlos Piratininga/Revista CASA CLAUDIA)

Faleceu hoje, 15, o artista Frans Krajcberg. Nascido em Kozienice, Polônia, em 1921, mudou-se para a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, quando sua família foi morta nos campos de concentração. Com 96 anos, o escultor, pintor, gravador, fotógrafo vivia no Brasil desde 1948. Ele estava internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro.

Nascido em Kozienice, Polônia, em 1921, mudou-se para a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, quando sua família foi morta nos campos de concentração Frans Krajcberg, escultor e artista plástico naturalizado brasileiro, em seu sítio Natura em Nova Viçosa, no extremo sul da Bahia.

Frans Krajcberg, escultor e artista plástico naturalizado brasileiro, em seu sítio Natura em Nova Viçosa, no extremo sul da Bahia. (Carlos Piratininga/Revista CASA CLAUDIA)

Saiba mais sobre a trajetória de vida do escultor e poeta da natureza*

“O artista sem fronteira, para nosso orgulho, vive aqui”, diz a placa de boas-vindas na entrada de Nova Viçosa, no extremo sul da Bahia. A pequena cidade foi eleita pelas baleias-jubarte como o destino anual de inverno e também por Frans Krajcberg como sua casa definitiva.

Mas, quando se convive um pouco mais de perto com esse escultor e poeta da natureza, fica estranho imaginar que alguém tão livre tenha um CEP. “Sou um homem do mundo. Nasci e tenho o direito de viver nele”, afirma Krajcberg, que cresceu na Polônia, perdeu a família na guerra e chegou aqui aos 27 anos, sozinho e com medo das pessoas. “Na Hungria, vi uma montanha de lixo num campo de concentração. Cheguei mais perto e eram corpos empilhados.”

Tamanho horror explica sua felicidade quando conheceu a natureza brasileira. “Ela me salvou. Sorria para mim e nunca perguntava de onde eu vinha ou que religião tinha. Foi quando descobri a vida.” Hoje, Krajcberg mora num resquício de mata Atlântica com o mar no quintal e faz da sua arte um grito de revolta.

Nascido em Kozienice, Polônia, em 1921, mudou-se para a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, quando sua família foi morta nos campos de concentração Casa de Frans Krajcberg, escultor e artista plástico naturalizado brasileiro, em seu sítio Natura em Nova Viçosa, no extremo sul da Bahia.

Casa de Frans Krajcberg, escultor e artista plástico naturalizado brasileiro, em seu sítio Natura em Nova Viçosa, no extremo sul da Bahia. (Carlos Piratininga/Revista CASA CLAUDIA)

Krajcberg vive a 7 metros do chão, numa casa construída na árvore. Mas houve um tempo em que se escondeu nas montanhas. “Eu o conheci no interior de Minas, nos anos 1960. Ele morava em uma caverna no pico de Cata Branca, região de mineração em Itabirito, até hoje apelidada de Barbudo das Pedras”, conta Zé do Mato, que se tornou ajudante do tal Barbudo das Pedras.

O artista vivia sem conforto, a barba por fazer, tomava banho no rio e trabalhava sem parar. Até hoje companheiro da solidão, o escultor inventou um jeito próprio de morar. “O melhor dia para mim é domingo. Me sinto bem sozinho”, diz. Em sua casa monástica, apenas algumas cadeiras, uma cama estreita, poucas roupas e cinco malas empilhadas — pois é, até um homem livre precisa delas.

O único luxo é a coleção de conchas, pedras, galhos secos e sementes. Boa parte dela recolhida no Sítio Natura, onde chegou em 1972, a convite do amigo e arquiteto Zanine Caldas, que o ajudou a conceber a casa da árvore. “Ele sonhava em transformar Nova Viçosa numa capital cultural”, lembra. A utopia de Zanine chegou a reunir nomes como Chico Buarque, Oscar Niemeyer e Dorival Caymmi. Só Krajcberg ficou.

A despeito da recomendação médica, Krajcberg quase nunca lembra de beber água. Quem o vê andando firme, gesticulando e dando ordens a seus 12 ajudantes, não imagina que esse senhor de 85 anos tenha passado recentemente pelo Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Recuperado de uma infecção rara, ele parece ter mais pressa do que nunca – a mesma dos que defendem uma causa urgente. “A situação do planeta é grave. A natureza é vingativa e nós a machucamos demais. Não podemos continuar passivos”, brada.

Nascido em Kozienice, Polônia, em 1921, mudou-se para a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, quando sua família foi morta nos campos de concentração Escultura de madeira siripa de Frans Krajcberg, no living projetado por Roberto Migotto.

Escultura de madeira siripa de Frans Krajcberg, no living projetado por Roberto Migotto. (Luis Gomes/Revista CASA CLAUDIA)

Ao transformar troncos e galhos calcinados em esculturas, Krajcberg protesta diante do que chama de barbárie do homem contra o homem e do homem contra a natureza. “Quero que minhas obras sejam um reflexo das queimadas. Por isso, uso as mesmas cores: vermelho e preto, fogo e morte.” Entre os amigos queridos — que são, na verdade, sua família — está o cineasta Walter Salles. “Costumo brincar que Krajcberg é meu irmão mais novo e mais radical”, diz. Os dois se conheceram em 1987, quando Salles filmou o documentário Krajcberg, o Poeta dos Vestígios. “Fazemos aniversário no mesmo dia, 12 de abril, e costumamos comemorar juntos.”

“Sou um homem revoltado.” A frase recorrente de Krajcberg lhe rendeu a fama de brigão. Já denunciou as queimadas no Paraná, a exploração dos minérios em Minas Gerais e o desmatamento na Amazônia. Também defendeu as tartarugas de Nova Viçosa e se postou na frente de um trator para evitar a construção de uma avenida na cidade. Apesar dessas e de outras histórias de indignação, o escultor também pode ser muito engraçado. Inventa apelidos para as pessoas, diz bom-dia para árvores e dança quando ouve o toque alegre do seu celular.

“Adoro seu humor. Acho extraordinário que, depois de tudo o que viveu, ainda mantenha um sorriso tão sincero”, observa Walter Salles. Contradições como essas fazem do escultor um artista contundente. “Ele está inserido na história da arte há muito tempo. Começou como um artista abstrato nos anos 1950 e migrou para a escultura”, resume o crítico Agnaldo Farias. Hoje, o que ele adora mesmo é fotografar. Acorda cedo e sai registrando flores. Nesses momentos, fala da importância de aproveitar o instante e saber olhar para as coisas. “Um dia nunca é igual ao outro.” Não mesmo no mundo de Krajcberg.

 

* Texto escrito por Silvia Gomez em 2006

 

“Tinha 17 anos quando conheci o Frans e comecei a trabalhar como seu ajudante. Ele morava numa caverna, pois queria fugir dos homens. Parecia um animal machucado. Ali, ele fez as primeiras gravuras na pedra e esculturas”

Zé do Mato, montador de exposições

“Ele é um artista único e radical, que suscita reflexões e diálogos. Ano passado, estivemos juntos em sua exposição no Parque Bagatelle, em Paris, e fiquei impressionado com a reação visceral das pessoas”

Walter Salles, cineasta

“Krajcberg ganhou projeção internacional com suas esculturas de madeira calcinadas nos anos 1970. Seu trabalho tem uma dimensão ética que vai além da arte: está ligado ao mundo sem ser panfletário e literal”

Agnaldo Farias, crítico de arte

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