V&A Museum exibe artefatos íntimos inéditos de Frida Kahlo

Mais de 200 objetos saíram pela primeira vez do México para estrelar a exposição “Making Herself Up”, em Londres

Frida Kahlo com figura Olmeca, 1939.

Frida Kahlo com figura Olmeca, 1939. (Nickolas Muray Photo Archives/Victoria and Albert Museum)

Por mais de 50 anos, itens pessoais preciosos da pintora mexicana Frida Kahlo ficaram trancados no banheiro da Casa Azul, onde nasceu, cresceu, viveu e morreu. O muralista Diego Rivera, então marido da artista, pediu para que os objetos fossem mantidos longe do público por 15 anos. No entanto, a benfeitora Dolores Olmedo, maior colecionadora da arte de Rivera, se recusou a abrir o cômodo e, somente dois anos depois da sua morte, em 2004, especialistas finalmente foram recrutados para explorar o local.

Foi assim que mais de 200 pertences íntimos de Frida foram revelados aos pesquisadores – fotografias, cartas de amor, manuscritos, rascunhos, roupas, acessórios, maquiagens, remédios, seringas, muletas, corsets ortopédicos pintados à mão e até mesmo sua prótese de perna, calçando botas bordadas em um vermelho vivo, encheram os olhos de estudiosos da vida e da obra de uma das mulheres mais importantes do século XX.

Alguns cosméticos de Frida Kahlo. Antes de 1954. Fotografia por Javier Hinojosa.

Alguns cosméticos de Frida Kahlo. Antes de 1954. Fotografia por Javier Hinojosa. (Diego Rivera and Frida Kahlo Archives, Banco de México, Fiduciary of the Trust of the Diego Rivera and Frida Kahlo Museums/Victoria and Albert Museum)

Pela primeira vez, esses objetos saem do México para estrelar a exposição Frida Kahlo: Making Herself Up, que acontece no Victoria and Albert Museum,em Londres, desde o dia 16 de junho.

A mostra revela uma Frida desnuda – suas pinturas surrealistas já refletiam parte de seus sentimentos turbulentos, frutos de uma vida repleta de dores e de um sofrimento intenso. Com a descoberta de tantos artigos importantes, é possível ter uma visão muito mais ampla da artista performática, que transformou seu corpo e seu estilo de vida em verdadeiras obras de arte.

Autorretrato na fronteira entre México e Estados Unidos, Frida Kahlo, 1932.

Autorretrato na fronteira entre México e Estados Unidos, Frida Kahlo, 1932. (Modern Art International Foundation, Cortesia de María e Manuel Reyero/Victoria and Albert Museum)

Para criar uma atmosfera familiar e coerente com o estilo de Kahlo, o estúdio de arquitetura Gibson Thornley e o cenógrafo Tom Scutt, convidados pelo V&A para ambientar as salas que receberiam as peças, viajaram até a Casa Azul em Coyoacán, que hoje também é um museu, e estudaram seus detalhes.

Na entrada da exibição londrina, o visitante é recebido por um túnel com pilares retangulares, que decrescem de tamanho e são adornados com padronagens geométricas em 3D – uma referência aos trajes de Tehuana, muito usados por Frida. A passagem emoldura e uma instalação – inspirada no quadro As duas Fridas (1939) – em que dois manequins estão de mãos dadas, um vestido com trajes europeus modernos, e o outro com roupas mexicanas.

 (Jack Hobhouse/Instagram)

Passando pelo túnel, seis réplicas da cama de Frida são utilizadas como vitrine para itens relacionados à sua condição médica. Nessa sala, a célebre frase “Pés, para que os quero, se tenho asas para voar”, escrita pela artista em seu diário em 1953, é dissecada através dos artefatos ali presentes. Aos seis anos de idade, contraiu poliomielite. A doença deixou marcas, como o membro inferior direito mais curto e a musculatura atrofiada. Seu pé esquerdo teve de ser amputado dois anos antes de sua morte.

Aos 18, sofreu um acidente de bonde quase fatal, sofrendo fratura em três vértebras e na pelve. Por conta disso, Frida não pôde ter filhos. Ao longo de sua vida, passou por 30 cirurgias, entre as quais sete da coluna.

À direita: Prótese de perna com bota de couro, 1953 – 4, México. À esquerda: Espartilho de gesso, por volta de 1954, México. Fotografias por Javier Hinojosa.

À direita: Prótese de perna com bota de couro, 1953 – 4, México. À esquerda: Espartilho de gesso, por volta de 1954, México. Fotografias por Javier Hinojosa. (Diego Rivera and Frida Kahlo Archives, Banco de México, Fiduciary of the Trust of the Diego Rivera and Frida Kahlo Museums. Museo Frida Kahlo/Victoria and Albert Museum)

Nessa segunda câmara do V&A, estão à mostra os medicamentos à base de morfina que a pintora usava para aliviar as dores, seus sapatos customizados, os aparelhos ortopédicos que seguravam a parte superior de seu corpo, etc. Maquiagens, incluindo seu batom preferido Everything’s Rosy, da Revlon, perfumes e outros cosméticos ainda intactos, além de acessórios, também estão presentes nos displays. Uma grande foto de Frida deitada em sua cama serve de plano de fundo.

 (Divulgação/Victoria and Albert Museum)

 (Divulgação/Victoria and Albert Museum)

Por fim, um terceiro espaço no museu londrino apresenta uma reinterpretação do templo que existe no jardim da Casa Azul. Por trás do vidro da estrutura, mais manequins vestindo roupas de Frida, algumas incônicas, algumas nunca vistas antes. Ao redor do templo, foram posicionados quadros em que a artista veste os trajes presentes. As paredes, é claro, são de um azul intenso.

 (Divulgação/Victoria and Albert Museum)

 (Divulgação/Victoria and Albert Museum)

As saias longas de seus vestidos tradicionais mexicanos ajudavam a esconder as sequelas físicas deixadas pelos acidentes que acometeram Frida Kahlo. Além de fazer parte da forma como se apresentava e queria ser vista pelo mundo, os trajes floridos, bordados, alegres e coloridos movimentaram a moda mundo afora. Comunista convicta, ela expressava suas opiniões por meio do que vestia e do que usava – foices e martelos, vestidos tradicionais e suas sobrancelhas fortes e marcadas eram uma extensão das suas pinturas.

Frida Kahlo: Making Herself Up mostra não só as telas surrealistas da artista, mas como ela adaptou todo o seu ser, transformando a si mesma em uma obra de arte que completa seus quadros.

A exposição fica em cartaz até dia 4 de novembro de 2018.

 (Divulgação/CASA CLAUDIA)

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