Arte: Nuno Ramos revela seu ateliê

Um dos mais viscerais e imprevisíveis artistas plásticos brasileiros, Nuno Ramos revela o ateliê ocupado por ele há mais de 15 anos.

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“Este é o momento mais vazio dos últimos cinco anos, antes tinha muito mais coisas”, pondera o artista paulista Nuno Ramos em seu quase caótico ateliê, localizado no bairro do Cambuci, em São Paulo. Mesmo após a limpa, o galpão revela memórias de exposições históricas: um dos tubos do órgão da obra Mácula, da 22ª Bienal de São Paulo (1994), blocos de mármore da série Gotas (1998), vidros soprados como os da instalação 111 (1992) – homenagem aos mortos no massacre do Complexo Penitenciário do Carandiru, na capital paulista – e até o avião da mostra de dois anos atrás no MAM do Rio de Janeiro, coberto por centenas de litros de sabão. Às vezes, as criações forçam o artista a passar dias longe dali, ocupado com viagens, fornecedores e montagens em galerias e museus. Ele compara esse processo à produção de um filme: é preciso equilibrar direção, roteiro, personagens e ação para tirar as ideias do papel. “Depois de uma montagem lenta que envolve muita gente, vir para cá e ficar sozinho pintando é sempre muito bom.”

Quando o Sol se põe e o silêncio paira sobre o espaço, Nuno se dedica ao desenho e à pintura, criações que não exigem quase nada além de sua intuição. Os quadros – que se tornaram marco em sua carreira e o acompanham desde o início da década de 1990 – dispostos nas paredes propõem uma nova densidade à criação pictórica. Apesar de usar como base a tradicional tela retangular, os volumes avançam metros na direção do espectador, e o peso de cada um pode chegar a surpreendentes 500 kg, resultado da sobreposição de metais, tintas, areia, vidro, tecidos, madeiras e outros materiais.

Em contraste com o uso de muita matéria, agentes basicamente imateriais – de escritos a narrativas em áudio – também exercem papel importante para atribuir emoção e sentido às obras. Frequentemente aparecem textos de autores admirados ou parte das viagens literárias do próprio artista, compiladas em livros como Cujo e o premiado Ó. No mais recente projeto, inaugurado em julho no Sesc Pompeia, Nuno construiu outdoors com as expressões Solidão e Palavra usando 15 toneladas de areia comprimida – uma reverência à canção Dança da Solidão, de Paulinho da Viola. A areia foi essencial em trabalhos passados, entre eles Bandeira Branca, que levou túmulos e urubus vivos ao pavilhão da Bienal de 2010. Mas, depois de um tempo repetindo a mesma técnica, o artista declara a necessidade de arriscar. “Nada se compara ao tesão do material novo, é excitante e apavorante”, conta ele, que há meses perde o sono pensando se outros dois projetos programados para 2012 vão funcionar. No ateliê, testa em menor proporção enterrar partes de casas na lama, o que fará em escala real na galeria Celma Albuquerque, com cortes arquitetônicos das três casas onde viveu. Prepara também a ocupação da galeria Anita Schwartz com dois globos da morte. Na frente dos visitantes, os motociclistas vão girar nas esferas e derrubar das estantes conectadas a objetos que representam o ciclo da vida (confira aqui detalhes da exposição). Mais algumas toneladas de material para sua pesada biografia. A facilidade em viajar por diferentes linguagens é talvez o que há de mais intrigante no “conjunto esquizofrênico” de sua obra, como classifica. E, provavelmente, o que vem a seguir jamais será enfadonho.

 

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