Fotografia: a eterna busca de Claudio Edinger

Um perfil do fotógrafo carioca que construiu seu estilo com base na convivência com diferentes culturas.

O fotógrafo carioca radicado em São Paulo – se é que se pode dizer que tem uma raiz – construiu seu estilo com base na convivência com diferentes culturas e grupos sociais. Um judeu que segue o hinduísmo, um brasileiro com cidadania americana. Edinger não para de se lançar ao mundo para entender de onde veio.

Dizem que um lar costuma refletir a personalidadede seu dono. Com Claudio Edinger, não poderiaser diferente. Desde a entrada do prédio, se veem noscorredores enormes molduras com imagens de pessoase paisagens. A decoração se estende – agora, numa escalamaior – quando se adentra o antigo apartamento.O fotógrafo de expressão vívida, que mistura os olhosverdes da família alemã com o bigode que reforça a ascendênciaportuguesa, vive em meio a numerosas fotose objetos provenientes de diversas partes do mundo. Ohomem inquieto desde a adolescência ainda se movepelos impulsos de suas ideias e de seu espírito – queequilibra com uma hora de meditação diária, atividaderealizada há anos religiosamente. No colegial, as classesde filosofia o fizeram tentar responder questões como“quem somos?” e “por que estamos aqui?”. Só durante afaculdade de economia, no entanto, Edinger descobriuque a câmera herdada de seu primo, uma Zeiss Contaflex,seria o instrumento que tentaria levá-lo a tão esperadasrespostas. “Havia uma ansiedade que só a fotografiapoderia curar. Um fotógrafo, se não captura imagens,murcha e morre. É um fungo saudável que precisa seralimentado.” Pode-se dizer, entretanto, que a “dieta”de Claudio Edinger é intensa. Durante dois meses, em1975, frequentou o Edifício Martinelli. No prédio, consideradoà época reduto de pobreza, prostituição e violência, o fotógrafo produziu sua primeira série. O conjuntolhe rendeu uma exposição no Museu de Arte de SãoPaulo (Masp) e a mudança para Nova York para desenvolverseu trabalho. A curiosidade pelo modo de vida dosjudeus ortodoxos o direcionou a residir em Crown Heights,no bairro do Brooklyn. Em pouco tempo, conquistoua confiança dos mais ressabiados e passou a retratara rotina até mesmo dentro de sinagogas e outros lugaresreservados. Desde os primeiros ensaios que Edingerfez, já é visível um traço fundamental para sua arte: anecessidade de imersão. A fotografia, para ele, é umarelação de intimidade que só se realiza por meio de umaconvivência intensa. Durante cinco dos 20 anos em quemorou nos Estados Unidos, viveu no lendário ChelseaHotel. O que, de início, era apenas uma opção financeira,devido ao baixo custo da estada, transformou-se nolivro com título homônimo da hospedaria, lançado em1983. Nele, personagens instigantes dão forma aos maisbelos retratos. O trabalho ganhou elogios no The NewYork Times e o prêmio Leica Medal of Excellence. Emseguida, a doença de Alzheimer de sua avó, que moravano Brasil, despertou o interesse na pesquisa por moléstiasmentais. Edinger resolveu passar cerca de duassemanas em Juqueri, na Grande São Paulo, no período,anos 1980, o maior centro de doentes psiquiátricos daAmérica Latina. Ali, teve um impacto emocional ao ver oser humano em completa loucura clínica e deu um passodeterminante em seu estilo, tendo se tornado a experiênciamais elogiada de sua carreira. “Usei o flash empleno dia. Era uma maneira de colocar aquelas pessoasignoradas socialmente no centro de atenção.” Assim,como o flash, há 12 anos adotou sistematicamente outrorecurso para isolar um detalhe dentro de um retângulo,o foco seletivo. “Ele cria uma síntese dentro da imageme, ao mesmo tempo, um paradoxo. Minha função nãoé a de trazer respostas, mas sim fazer com que as pessoasreflitam o que olham.” O curador Eder Chiodettodestaca que Edinger sempre criou estratégias únicas epoéticas para seus ensaios. “Ele tira o referente do seulugar-comum. O foco seletivo se junta a esses artifícios.”Com uma câmera de grande formato 4 x 5, inaugurou,em 2001, sua fase com esse efeito imagético em fotos empreto e branco do Rio de Janeiro. Depois de lá, seguiuem ensaios por São Paulo, Paris, Los Angeles, Santa Catarina,Veneza e o interior baiano, onde passou sete anosentre idas e vindas até concluir um livro lançado no anopassado, De Bom Jesus a Milagres. Quem disse que elevai parar por aí? Seus planos são de continuar por Áfricae Portugal. Aos 61 anos, o fotógrafo que nasceu carioca,cresceu paulistano e amadureceu em Nova York aindacontinua à procura de seu lugar.

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