História de Abraham Palatnik é tema de exposição em Brasília

Exposição em Brasília traz à tona a história de Abraham Palatnik na retrospectiva sobre o artista que é considerado um dos principais nomes da arte cinética mundial.

A exposição em cartaz no CCBB Brasília durante o mês de julho traz a retrospectiva de um artista decisivo para o posicionamento da arte brasileira no modernismo. Mas não fosse um encontro, caminhos cruzados quase por acaso, Abraham Palatnik, um dos pioneiros e maiores representantes da arte cinética do planeta, não teria trocado os pincéis e as telas pelos motores e lâmpadas que dão vida a obras como seus Objetos Cinéticos e Aparelhos Cinecromáticos, invenções que revolucionaram a produção e a maneira de ver e exibir arte no Brasil e no mundo. De origem judaica, nascido em Natal, Palatnik voltou ao Brasil de Telaviv, em Israel, onde estudou arte e mecânica, tendo se especializado em motores de explosão. Desembarcou no Rio de Janeiro nas vésperas da década de 1950, tendo encontrado um ambiente artístico em sua fase de concepção: era o nascimento das inquietações modernas, que se concretizaram em 1951, com a 1ª Bienal de Arte de São Paulo. Almir Mavignier e Mário Pedrosa, artista e crítico, respectivamente, dois dos maiores defensores da arte abstrata no período, tornaramse grandes amigos do pintor potiguar. A expansão dos limites do interesse da arte se manifestava no cotidiano e atraia a atenção de todos. Mavignier, por exemplo, além de sua atuação como artista (e mais tarde articulador do Brasil com a alemã Escola de Ulm, de Max Bill), orientava o ateliê coordenado pela dra. Nise da Silveira, médica alagoana que havia se tornado aluna e discípula de Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica. Nise implantara no Centro Psiquiátrico Nacional, no bairro carioca do Engenho de Dentro, terapias artísticas que, não sem causar controvérsia no cenário médico da época, em pouco tempo se provaram mais eficientes que procedimentos correntes no período em hospitais do tipo, tais como eletrochoques e injeções de insulina. Mavignier convidou o amigo recém-chegado para conhecer o ateliê coordenado pela médica – com as bênçãos do próprio Jung, que chegou a visitar a instituição durante o trabalho das terapias artísticas. Palatnik conectou-se imediatamente com as pinturas de pacientes como Emygdio de Barros e Raphael Domingues. Passou a acompanhar o desenvolvimento do trabalho dos internos, visitandoos com frequência e levando material em transferências pelas quais alguns deles passaram durante o tratamento.

Diagnosticados como esquizofrênicos, Emygdio de Barros e Raphael Domingues são autores de trabalhos reconhecidos pela crítica já na época como obras de primeira linha. Mário Pedrosa e Ferreira Gullar colocam Emygdio entre os maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Apenas hoje, quase 70 anos depois da criação do Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do Centro Psiquiátrico Nacional (rebatizado Instituto Nacional Nise da Silveira), os dois têm o trabalho visto fora do contexto psiquiátrico. Uma exposição no Instituto Moreira Salles de São Paulo, também no mês de julho, mostra uma coletânea do trabalho dos pintores guardado pelo Museu de Imagens do Inconsciente, instituição carioca que abriga o grande legado realizado sob os cuidados de Nise da Silveira. Artistas que pouco ou nada falavam – de quem quase nada se sabe sobre biografia – e que terminaram sua vida dentro de uma instituição psiquiátrica, onde realizaram uma obra prolífera e genuinamente moderna. Não por acaso o título da exposição, com curadoria de Rodrigo Naves, e Heloisa Espada localiza ambos na história da arte: Raphael e Emygdio: Dois Modernos no Engenho de Dentro. No texto de abertura, Rodrigo Naves sublinha a injustiça de as obras terem sido confinadas, ao menos durante a vida de seus autores, ao contexto psiquiátrico. Uma obra que, em 1947 – um ano depois do início do trabalho da médica alagoana com os internos do Engenho de Dentro –, paralisou o jovem artista que chegava de Telaviv querendo participar da revolução moderna com suas criações sobre tela. Conta-se que se sentiu arrebatado pela produção dos internos, sobretudo pelas assinadas por Emygdio, Raphael e Carlos Pertuis (que tem um dos trabalhos reproduzido na abertura deste Caderno de Leitura). Palatnik parou. Conta-se que, diante de produção tão pulsante, feita dentro dos muros de uma instituição com finalidade terapêutica, o pintor não via mais sentido no que fazia com pincel em tela. Se fechou em um dos quartos transformados em ateliê durante a sua trajetória – aposentos que mais parecem oficinas mecânicas e onde até hoje o artista concentra suas horas diárias de criação artística. De lá, saiu com uma máquina, elaborada com a combinação de seus conhecimentos sobre motores e a sensibilidade com as cores. Nascia a pintura feita com luz e movimento de Abraham Palatnik. Para o júri da 1ª Bienal de Arte de São Paulo, foi ousadia descabida a sua proposta de participar da mostra. A máquina de luzes e cores (nas palavras do crítico Luiz Camilo Osório) foi prontamente rejeitada pela comissão responsável por não caber nas classificações artísticas esperadas: nem pintura, nem escultura, nem desenho. Encorajado por Mário Pedrosa, contudo, o artista potiguar apresentou com tudo sua engenhoca, o primeiro Aparelho Cinecromático na mostra, que tinha entre os classificados a Unidade Tripartida, de Max Bill. Palatnik, por fim, participou da Bienal de 1951. Mas há registros de que essa reconsideração da organização se deve a uma desistência internacional,mais que qualquer revisão de conceitos. Ainda que pouco depois o tenha reconhecido. Como não havia “rubrica” para premiar o Aparelho Cinecromático, o artista ganhou uma participação especial. E inscreveu seu nome na inauguração da arte cinética em todo o mundo. A exposição Abraham Palatnik: A Reinvenção da Pintura, no CCBB Brasília, mostra todo o desenvolvimento dessa trajetória, que alimentou não só o modernismo como também influencia a produção contemporânea, com essa vocação fronteiriça entre o artefato mecânico e a poética da cor. Um universo que se abriu de uma crise, o susto do jovem artista em constatar que a arte existe para além dos portões conceituais e de tudo que é programático. De lâmpadas, acrílico, madeira ou motores, a partir de um rompimento interno, alcançou uma obra impregnada, do começo ao fim, do espírito inventivo.

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