O homem e as pedras brasileiras, pelo fotógrafo José Bassit

O fotógrafo José Bassit decidiu viajar o território brasileiro para produzir um ensaio sobre a relação de um homem com as pedras de seu país.

Engana-se quem pensa que as fascinantes fotografias desta e das outras páginas sejam de algum lugar distante de nós. O cenário é o Brasil. E elas fotografadas por alguém que percorreu os mais diversos locais do país em busca de um objetivo tão pueril quanto poético: fotografar pedras. Mas o que levou o fotógrafo José Bassit a decidir ir a locais de difícil acesso, percorrer trilhas intermináveis (“sempre com a ajuda de guias locais”, ele afirma) e olhar por horas a fio esses imensos maciços para, então, registrá-los em fotografias? Tudo começou com uma mudança de vida. Em 1998, decidiu largar a redação do extinto jornal Gazeta Mercantil. Aos amigos e conhecidos, justificou a decisão com uma frase aparentemente simples. “Quero fotografar gente”, repetia. Desde então, o repórter fotográfico que se tornou fotógrafo documental foi autor de trabalhos impressionantes. Um deles, chamado Imagens Fiéis, que virou livro homônimo pela editora Cosac & Naify, é um conjunto de fotografias clicadas em sete estados do Brasil, sempre tendo como tema a fé do brasileiro. Histórias curiosas não faltam. Para uma delas, por exemplo, ele decidiu passar a virada do milênio em um cemitério de Juazeiro do Norte, no Ceará. O motivo: acompanhar um grupo que se flagelava enquanto acreditava piamente que o mundo iria acabar nos minutos seguintes. Entre suas andanças pelo Brasil e também por Londres, onde produziu um ensaio sobre o metrô da cidade na década de 1980, Bassit nunca se esqueceu de um tema que o cativa há muito tempo. Paradoxalmente, o fotógrafo que gosta de gente sempre teve um flerte por pedras. Ele não sabe ao certo a razão dessa atração, mas suspeita. “Pedras são pedras, impávidas diante da passagem do tempo”, explica. Essas razões o fizeram viajar para sete locais do Brasil: chapada dos Veadeiros, em Goiás; praia de Itaguaçu, em Santa Catarina; lajeado do Pai Mateus e Parque Nacional Pedra da Boca, na Paraíba; chapada Diamantina, na Bahia; Parque Estadual Turístico do Alto da Ribeira, em São Paulo; e vale do Catimbau, em Pernambuco. Questões estéticas (como a escolha do preto e branco para não situar demasiadamente os locais) e até mesmo filosóficas parecem evidentes sobre um homem que decide fotografar pedras. De maneira contrária à maioria dos ensaios fotográficos, quem se mexe nessas fotografias é Bassit, que muitas vezes passou horas mudando de posição para encontrar o ponto de vista que julgasse ideal. Além disso, caso os cenários contemplativos não sugerissem um total silêncio, a frase que ecoaria dessas rochas certamente seria algo relacionando a nossa completa miudeza diante do mundo. Elas parecem zombar de nós: “Sempre estivemos aqui e vocês se julgam donos do mundo?”.

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