Palazzo Durini, em Milão, é referência em artes plásticas

Pertencente a uma nobre família da Lombardia, o Palazzo Durini, em Milão, foi restaurado e aberto ao público graças ao empenho do conde Giulio Durini.

O pátio interno e a amplitude dos espaços, combinados com a localização tranquila e ao mesmo tempo central, são as características do palácio que mais agradavam ao pintor Giuseppe Bossi, que ali viveu de 1809 até sua morte, em 1815. O menor dos oito palácios do clã Durini em Milão, localizado na via Santa Maria Valle, próximo ao Duomo, foi também o endereço do ateliê do escultor Antonio Canova, amigo de Bossi. A foresteria, local onde eram recebidos os hóspedes estrangeiros e os artistas que trabalhavam para os Durini, foi um dos três edifícios da família – todos com o mesmo nome de Palazzo Durini – a resistir aos bombardeios que destruíram boa parte de Milão durante a Segunda Guerra Mundial. Se no passado a residência nobre escapou ilesa das bombas, o mesmo não se pode dizer dos anos de abandono e má administração por que passou em sua história recente. Criada em 1939 por Antonio Durini para promover atividades ligadas às artes plásticas, a fundação, de acordo com seu estatuto, deveria ser sempre presidida, de forma vitalícia, por um membro da família. Apenas na ausência de um Durini em condições de assumir o cargo, o presidente seria nomeado pelo Estado italiano, com mandato de dois anos.

Foi o que aconteceu na década de 1970, quando, por causa da difícil situação política vivida na Itália, o conde Teobaldo, pai do atual presidente, mudou-se para os Estados Unidos, deixando a fundação sob o controle do Estado. “Foi um grande erro, pois o que aconteceu depois deu origem a muita corrupção: a fundação foi dilapidada pela administração pública”, lamenta Giulio Durini di Monza, conde da cidade de mesmo nome e príncipe de Fabbrica, vilarejo na província de Como. Ele era criança quando cruzou o oceano rumo à América com os pais, o irmão e a irmã.

Cresceu em Nova York e, adulto, foi para Paris cursar a escola de Belas Artes. Quando resolveu se apresentar como presidente da fundação, lugar que era seu por direito, já que seu irmão mais velho também havia renunciado à posição, enfrentou muita resistência: só recuperaria o cargo depois de uma batalha que se arrastou por cerca de 12 anos na Justiça.

O conde trabalha agora para que o Palazzo Durini da via Santa Maria Valle – sede da Fundação Alessandro Durini e o único palácio da família que pode ser visitado pelo público – recupere o esplendor de outrora e se consolide como um centro vivo para as artes: local para encontrar artistas, ouvir música, visitar exposições. O processo de restauro, que já dura mais de cinco anos, possibilitou recentemente abrir ao público todo o pavimento térreo, onde ficava o estúdio de Canova. O próximo passo é restaurar o primeiro andar, onde viveu Bossi. “A cultura é muito importante para manter o nível de um país”, afirma o conde. “As escolas de música são outro patrimônio que precisa ser preservado.” Além do restauro do palácio e da conservação das obras de arte que abriga, a fundação investe parte de seus recursos para financiar atividades ligadas às artes na Academia de Belas Artes e no Conservatório de Música de Milão. O principal desafio é financiar tudo isso sem recorrer a dinheiro público. A maior parte dos recursos da fundação é proveniente do aluguel de propriedades da família. A própria sede pode ser alugada para a realização de eventos que não fazem parte da atividade cultural da fundação, mas que ajudam a financiá-la. Este ano, durante o Salão do Móvel de Milão, em abril, foi lá que a revista CASA CLAUDIA, da Editora Abril, montou um espaço para comemorar seus 36 anos.

Nos arquivos da fundação, encontram-se documentos e desenhos ligados à história da arte e da política da Itália. A trajetória da família Durini, uma das mais antigas da Lombardia, se confunde com a dessa região, não apenas do ponto de vista político mas também artístico. Com cardeais, bispos, governadores e prefeitos, o clã ajudou a escrever a história de Milão desde 1644, quando o conde Giovan Battista encomendou ao arquiteto Francesco Maria Richini, o mais famoso da região naquela época, o projeto do Palazzo Durini da via Durini, uma rua que atualmente é o endereço de importantes nomes do design de mobiliário, como B&B Italia e Cassina. Foi de seu filho, Gian Giacomo III, a decisão de construir o Teatro Alla Scala de Milão. Outro membro da família a inscrever seu nome na história foi o cardeal Durini, que, em 1781, publicou um código de leis que proibia a discriminação contra os judeus. A construção do palácio da via Durini levou apenas três anos e, no ano seguinte, 1648, o conde Giovan Battista e mais três irmãos compraram o título de conde de Monza, que o presidente da fundação conserva ainda hoje. Na Catedral de Monza, cidade próxima a Milão, repousa uma coroa composta de seis retângulos de ouro unidos por dobradiças, adornada com 46 pedras preciosas, a Corona Ferrea.

Além de ser um importante objeto de joalheria, é considerada também uma relíquia, pois dentro dela há um anel de ferro que teria sido forjado com um dos cravos que pregaram Cristo na cruz. A família Durini é guardiã dessa joia, que pertenceu à rainha Teodolinda, fundadora da cidade, e hoje fica na Catedral de Monza, onde pode ser visitada duas vezes por dia. Símbolo do poder na Itália, foi usada por Napoleão Bonaparte, quando se coroou rei da Itália, em 1805. “Recebi-a de Deus. Que ninguém ouse tocá-la”, foi a frase dita por ele quando o arcebispo de Milão pegou a coroa para a colocar na cabeça. Com esse passado glorioso, a família Durini está reduzida a poucos membros. “Meu avô tinha cinco irmãos, mas nenhum deles teve filhos. Quase acabamos”, conta o conde Giulio, pintor, retratista oficial do governo italiano e profundo conhecedor das artes, que vive com o companheiro brasileiro Henrique Mollica entre Milão, o vilarejo de Fabbrica e São Paulo, três cidades onde mantém residência. A descendência é transmitida apenas pelos homens. Seu irmão, o conde Alessandro Durini, mora em Londres e tem um único filho. No futuro, será dele a missão de manter a tradição da família Durini.

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