Restauração: um passeio no tempo, na história e na memória

Meus projetos para valorizar o ofício de restaurador e ensinar essa profissão aos jovens

Oficina São José – RJ

Oficina São José – RJ (Divulgação/Arnaldo Danemberg Antiquário)

Vivemos rodeados de móveis. Ao nascer, um berço nos aguarda. Mais tarde, as camas, de solteiro, casal…, mesas, cadeiras diversas, cômodas, espelhos, caixas… Nossa vida se passa ao redor dos móveis e em comunhão com eles. Atendem às nossas necessidades básicas de conforto e alimentam nosso gosto e senso estético. São, quem sabe, a arte decorativa maior.

Como todo bem artístico, é importante conservá-los e, sempre que necessário, restaurá-los. Restaurar significa recuperar as condições de uso do móvel, respeitando as marcas do tempo, sem eliminá-las. Restaurar não é modificar, adulterar, criar um móvel novo.

Hoje, muito se fala em sustentabilidade, e nada mais natural que restaurar um patrimônio artístico, seja ele um móvel, uma pintura, um tecido, um papel ou até mesmo um monumento. Recuperar o que temos à mão, diante de nós. Recuperar a expressão de nossa arte, perpetuando nossa memória.

A exposição ‘’A Restauração no Brasil. Artistas, Artífices, Artesãos’’.
BNDES – RJ 2002

A exposição ‘’A Restauração no Brasil. Artistas, Artífices, Artesãos’’.
BNDES – RJ 2002 (Divulgação/Arnaldo Danemberg Antiquário)

O mundo das artes muito deve à figura do restaurador. Em 2002, tive a honra de homenageá-los na exposição “A Restauração no Brasil – Artistas, Artífices e Artesãos”, de minha concepção e curadoria, realizada no Espaço Cultural da sede do BNDES/RJ. Costumo chamar os restauradores de “mestres humildes”, pois em museus e instituições sempre vemos a menção aos autores das obras, mas muito raramente ao trabalho daquele que as conserva e restaura. Já repararam nisso? São nossos mestres silenciosos…

Nessa exposição, foram apresentados trabalhos de restauradores de móveis, imagens, indumentária, gravuras e desenhos, papel – obras raras, coleções etnográficas, pintura, cerâmica, entre outros segmentos. Coleções de importantes museus brasileiros e instituições de destaque fizeram parte da mostra. Ao final do percurso da exposição, foi montado um ateliê de restauração de indumentária com o acervo do Instituto Zuzu Angel. Obras da conceituada estilista brasileira foram ali expostas ao som da música Angélica, composta em sua homenagem por Chico Buarque de Hollanda. Homenageando os restauradores, homenageamos também uma história recente de muita coragem e determinação: a história de uma mãe, Zuzu, em busca de seu filho desaparecido. Tecidos misturados à nossa memória.

Em 2005, junto com a Prefeitura do Rio de Janeiro/Secretaria de Desenvolvimento Social, encabecei um projeto de minha autoria, do qual também me orgulho muito, o Profissionalizando o Futuro. Trata-se de um projeto de inclusão social por meio da capacitação de jovens de baixa renda, dos 15 aos 19 anos, em oficinas técnicas com professores e mestres-artesãos especializados. Recuperação de valores históricos e formação de auxiliares em restauração para o mercado de trabalho foram a tônica. Nove meses de curso, visitas técnicas a diversos museus, aulas de contabilidade, história, história do mobiliário brasileiro, palestras de profissionais diversos (museólogos, historiadores, arquitetos, restauradores estrangeiros, entre outros). Nos meses finais do curso, importantes itens de mobiliário do acervo do Convento de Santo Antônio/RJ foram restaurados pelos alunos, auxiliados por seus mestres. Esse curso teve seu mérito reconhecido pela Unesco – órgão das Nações Unidas responsável pela Educação, Ciência e Cultura, passando assim a ser chancelado por essa organização.

Em 2009, repetimos o curso em Brasília junto com a Superintendência do Iphan. Móveis modernistas brasileiros dos acervos da Câmara dos Deputados e do Palácio da Alvorada foram restaurados ao final do curso pelos jovens aprendizes juntamente com seus mestres, constituindo assim a apresentação final do projeto. Outra grande alegria!

Fizemos a avaliação de cada móvel a ser restaurado. Depois disso, revisamos a estrutura, acertamos a estabilidade, aplicamos a desinfestação (corretiva ou preventiva), cuidamos de algumas necessárias obturações e, por fim, fizemos a relustração do móvel. Uma leve lixa retira o verniz antigo. A cera é aplicada e, depois, mais uma camada de verniz para proteção. Por vezes, uma pintura não-original do móvel é retirada, revelando sua bela madeira.

Nas fotos a seguir, apresentamos um baú em três fases de restauração. O processo requer tempo e dedicação. Ao final, temos nosso móvel apto novamente a nos servir, vivenciar novas histórias e, quem sabe, nos contar muitas outras…

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 (Divulgação/CASA CLAUDIA)

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