Antiga “casa de alpendre” vira galpão contemporâneo

A mineira Shirley Paes Leme transformou seu ateliê em um grande galpão contemporâneo com a ajuda do escritório Brasil Arquitetura.

Era uma vez uma velha casa de telhas, tijolos e estrutura artesanal, construída por um imigrante português que ergueu, além da sua, outras três, para cada um dos filhos. Andando por uma das ruas perpendiculares ao Cemitério São Paulo, que empregou o patriarca e depois um dos filhos, Shirley conheceu dona Cândida. Sem saber que estava diante de uma das herdeiras das casas (filha e irmã dos coveiros), desabafou sobre a dificuldade de chegar de Minas Gerais a São Paulo e não ter um endereço. “Compre a minha casa”, disse dona Cândida, entre sorrisos que acompanharam muitos cafés pelos longos meses em que a artista plástica negociou a moradia. Os irmãos não queriam vender. “Mas ficamos tão amigas e cúmplices, que não só ela convenceu os irmãos como tempos depois de eu ter comprado o lugar ela, que morava na casa vizinha, vivia varrendo as folhas que a grande sibipiruna despeja sem parar aqui na frente”, diz Shirley. Poucas semanas após a compra, a linda casa de alpendre veio abaixo. “Apesar da qualidade construtiva do começo do século passado, ela estava com a estrutura muito comprometida. Fiquei arrasada.” Shirley então transformou sua tristeza em projeto. “Propus e meus alunos do mestrado [na Faculdade Santa Marcelina] toparam. Fizemos um levantamento do que sobrou das ruínas, recuperamos tijolos com a gravação manual do dia que deixaram a olaria, telhas diferentes umas das outras e toras de madeira maravilhosas, inteiras, robustas. Criamos novas propostas, leituras artísticas para o que sobrou do sistema hidráulico, do piso, dos escombros.” Mas Shirlei ainda não tinha seu ateliê. Foi quando encontrou outro amigo, e quase vizinho de rua, o arquiteto Marcelo Ferrraz, da Brasil Arquitetura. “Estava ainda inconsolável com a ruína e ele me disse: ‘Vamos lá ver isso’.” Cada centena de tijolos recuperada deu origem à grande parede que define o pé-direito duplo do balcão de linhas retas, com ar cosmopolita, contrastando com a produção de uma organicidade quase viva que marca a obra de Shirley Paes Leme – recém-reunida em um compêndio de sua trajetória, com texto de enormidades como Maria Alice Milliet, Tadeu Charelli e Michael Asbury. O espaço foi inaugurado com a exposição da pesquisa feita com base na ruína da casa, que se chamou Obra e foi registrada em um catálogo em forma de planta – com crédito dos artistas, pedreiros e arquitetos. Hoje, o ateliê recebe mostras e em breve deve se transformar em um interessante ponto de encontro para estudo e pesquisa de arte. Além, claro, das criações da artista, distribuídas pelas paredes brancas, que mudam de feição durante o dia e as estações do ano graças à ação da luz, que entra pelos generosos rasgos laterais, transformando continuamente o ambiente. Com a cadência natural e viva das obras de sua apaixonada proprietária

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