Aurelio Martinez Flores

Linhas simples são a marca do trabalho do arquiteto mexicano radicado no Brasil Aurélio Martinez Flores. Ele revela sua trajetória e seu universo de inspirações.

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O primeiro projeto de Aurélio Martinez Flores foi uma loja de departamentos em Puebla, sua cidade natal, aos 17 anos. Autoditada, no início de carreira, descobriu desde muito jovem sua vocação, graduando-se arquiteto pela Universidade Nacional do México. Foi nos 1960, a convite da empresa americana Knoll, que se fixou no Brasil. Com mais de 50 anos de carreira, seus traços simples e precisos impressionam pela coerência e pela extrema sofisticação. Conheça um pouco mais da trajetória desse autor de obras emblemáticas.

Sua infância em Puebla, junto à família, influenciou a formação de seu repertório?

Sem dúvida, o ambiente no qual vivi me inspirou. Morava em um antigo convento, com 27 quartos e oito irmãos. Dentro de casa tinha uma capela onde meus pais se casaram, pois naquela época a Igreja era proibida no México. Tudo isso me marcou muito. E não tinha nada de moderno ali. Fiz uma exposição, no ano passado, que se chamou Nostalgia e Decadência. É assim que me sinto. Trago um pouco dessa nostalgia e vivo certa sensação de decadência.

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Como se deu sua carreira aqui no Brasil?

Estudei na Universidade Nacional do México e ali segui os professores ligados ao movimento americano liderado por Richard Neutra. Só depois de alguns anos é que conheci a obra de Barragán e, quiçá pelo inconsciente coletivo, acabei fazendo uma arquitetura com essas características no Brasil. Quando descobri que a Knoll estava chegando à Cidade do México, tratei logo de trabalhar com eles. As peças do meu maior mestre, Mies van der Rohe, eram produzidas pela empresa. Eles me mandaram primeiro para Nova York e depois para o Brasil, a fim de implantar a fábrica. Logo percebi que poderia abrir meu escritório. Quando fundei a Inter-Design, onde uni escritório e loja. Talvez a primeira loja de design do Brasil. E em 1972 fiz meu primeiro projeto: a casa de José Zaragoza.

Qual sua relação com outras artes, como literatura, pintura, música etc.?

Estou lendo Philip Roth, Umberto Eco, Jean Baudrillard. Gosto bastante de romances e ensaios. Quanto à pintura, não tenho muito apreço pelos muralistas, pois acho esses trabalhos muito políticos. Eu me considero apolítico, não acredito nessa turma. Dos antigos admiro a obra de Vermeer, e dos modernos gosto das abstrações de Miró.

Como é seu jeito de trabalhar, seu dia a dia?

Gosto de contar que desde o primário já era um sacrifício acordar cedo. Por isso, pensei: “Tenho que acordar agora para um dia não ter que acordar”. Isso me norteou. Atualmente eu durmo às 4 horas da manhã e acordo por volta das 12 horas. Às vezes, vou para o escritório, mas também projeto em casa. O que é preciso para ser um bom arquiteto? Precisa nascer arquiteto. Sabe, acredito ser um dom. Um dom dado por Deus, ou por alguma divindade – falo em Deus pois toda a minha formação veio dos jesuítas. Estudei desde Aristóteles até São Tomás de Aquino. Por exemplo, o Chico Buarque tem um dom. Mahler tinha um dom. Com certeza eles não aprenderam a fazer o que fizeram na escola. Tem certas coisas que você nasce com elas. Niemeyer, Le Corbusier e todos esses grandes arquitetos nasceram com um dom. Veja: o Tadao Ando era boxeador.

Projetos para o futuro?

Escrever um livro de contos. Já tenho um bom volume de textos que somam 20. Todos com a temática da arquitetura. Em cada um deles uso um pouco de humor para brincar com as obras das grandes construtoras.

 

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