Reforma transforma trullo, morada típica da Puglia, em casa de campo

Em um trullo, o arquiteto ecossustentável Mario Cucinella encontrou o refúgio para esquecer seu cotidiano agitado e descobrir osprazeres da vida no campo na Itália.

Toda vez que o arquiteto Mario Cucinella circula pelo interior de sua casa trullo, em Ceglie Messapica, na Puglia, enverga a coluna. Sua altura de 1,90 m é desproporcional às portas internas da construção centenária. Os antigos moradores, Domenico e Anna, hoje octogenários, não superam 1,60 m, estatura comum entre os habitantes da região. Quase como uma casa de bonecas, os trullos são construções de pedras originárias do século 16 com telhados cônicos. Depois de alguns anos em Gênova – trabalhando ao lado do arquiteto e professor Renzo Piano – Paris e Bolonha, Mario Cucinella não resistiu aos encantos da “roça”, como ele mesmo define a região.

Como Cucinella se apaixonou por esse trullo

 

O amor à primeira vista aconteceu no ano 2000, durante um período de férias. Assim que viu a propriedade de 350 m²  nas colinas resolveu arrematar os dois trullos conjugados. Mesmo em condições precárias, ele não perdeu o ânimo. Se para muitos a palavra reforma remete a dores de cabeça, para ele o vocábulo significou um grande prazer. “Os trullos são reconhecidos pela sua bioarquitetura. Exatamente como eu imagino meus projetos. Toda casa deve nascer para atender às necessidades das pessoas. Meu trullo espelha quem sou e como quero viver”, afirma o arquiteto. Cidadão do mundo, ele emenda: “Nasci na Sicília, cresci em Gênova, morei em Paris, vivo em Bolonha boa parte do tempo e viajo o mundo todo, mas escolhi aqui para ficar”. Aos 50 anos, reconhecido como um dos mais requisitados arquitetos ecológicos e vencedor de prêmios importantes, como o Architectural Review Future Projects Awards, em 2009 e 2011, da revista inglesa Architectural Review, Mario Cucinella adora experimentar. O ar de descontração é percebido no tom de voz que descreve seus dias na Puglia. “Se aqui a mente relaxa, o físico não”, diz.

Como foi a reforma do trullo

 

Nos quase sete anos de restauração, ele deixou de lado materiais inovadores e tecnológicos. Tudo foi pensado para aproveitar as qualidades da edificação. O branco das pedras naturais da construção foi recuperado e mantido como marca incontestável da propriedade. A cozinha virou a sala, a sala virou um segundo quarto e os banheiros foram aumentados. As modificações foram feitas sem esquecer o respeito às características tradicionais. As passagens baixinhas continuaram como antes. Para dividir os espaços, nada de portas de madeira convencionais − a privacidade foi garantida por cortinas de tecidos leves que se transformaram em barreiras suaves. O piso de pedra ficou como era. A cozinha ganhou espaço redobrado. E, na sala, as duas lareiras, constantemente acesas durante o inverno, foram direcionadas para acolher todos os ambientes, decorados com simplicidade.

 

Móveis reformados, alguns feitos por artesãos da região, receberam um espaço adequado. “Tudo tem uma história, o cervo de vime sobre a lareira e a mesa com base de mármore foram trazidos de carroda França para Bolonha e agora estão aqui”, explica. “Viver em um trullo é como voltar no tempo. Não há calefação nem ar condicionado. As paredes são tão espessas que no inverno o calor se mantém graças ao fogo aceso da lareira, e no verão a temperatura fica entre 20 e 25 graus. O segredo é justamente a concepção da construção”, diz. A bioarquitetura secular se revela justamente na proporção. “Tenho 200 m² de área total, mas o espaço que ocupo é de 150 m². O restante são só paredes, ou melhor, pedras.” Os muros – como são chamadas as paredes dos trullos – são a verdadeira fórmula ecossustentável que tanto agrada ao arquiteto. Em meio à vegetação campestre, ele admite que seu refúgio o faz se sentir mais primitivo. “Me ajuda a refletir e encontrar soluções simples para novos projetos”, conta.

 

Nesses mais de 20 anos de profissão, com obras sustentáveis em todo o mundo, Mario Cucinella se declara um ser humano feliz. “Nada se compara à simplicidade de poder revolver a terra e sentir o perfume do pão fresco feito em casa. E ainda ouvir às seis da manhã meu vizinho Domenico, que, deixando um pratinho de tomates frescos, grita: ‘Mariooooo!’ Isso, sim, é meu lar.”

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s