A força e a leveza do bambu na igreja de Simón Vélez e outras obras

A história do bambu, material que oferece um leque de possibilidades e é usado em casas e edificações no Brasil e no mundo

Lá pelo início do século passado, quando apenas se podia viajar por água ou por terra, Alberto Santos Dumont estava prestes a fazer uma revolução. Depois de várias tentativas, o inventor brasileiro desenvolveu, em 1906, o biplano 14 Bis: o primeiro avião no mundo que conseguiu levantar voo por si só. E parte da estrutura da pequena, porém histórica, aeronave era de bambu. É com esse exemplo que o arquiteto colombiano Simón Vélez explica uma das principais vantagens desse material – a leveza.

Como Simón Vélez refez a história do bambu

 

Demorou várias décadas para a arquitetura enxergá-lo como uma alternativa construtiva. E foi justamente da mão de Simón, a partir de 1980, que o bambu começou a estruturar casas, prédios e igrejas, não só naquele país latino como também no mundo todo. “Por mais que eu tenha nascido em uma selva de bambu, compartilhava o mesmo desprezo dos colombianos pela chamada madeira dos pobres”, confessa o arquiteto. A espécie Guadua angustifolia cresce em abundância, principalmente no Triângulo do Café, região andina da Colômbia. Era usada em moradias desde os tempos pré-colombianos, mas até então não conseguira substituir materiais como ladrilho, aço e cimento. Ao introduzir cimento no entrenó do caule, Simón alcançou uma união mais forte do que com a madeira, ele conseguiu vencer a grande limitação da guadua, a junção.

Com base nessa inovação, o arquiteto começou a enxergar a engenharia do bambu (um tubo oco por dentro, mas com uniões horizontais no exterior que melhoram sua resistência) mais inteligente que a da árvore, cuja estrutura fica no centro dela. E não vence apenas a madeira, pois, segundo Simón, apresenta uma relação peso/resistência maior ainda que a do aço. “Além de tudo, é um material muito fotogênico e carismático”, defende. Mas alerta que é preciso proteger a construção das intempéries com “um chapéu de abas largas e botas de cano longo”. Em outras palavras, um grande teto para evitar o contato com sol e chuva e uma base de algum material não orgânico (cimento, cobre, ladrilho…) a fim de que as varas não tenham contato com a umidade do solo. Para Ximena Londoño, taxonomista e presidente da Sociedade Colombiana do Bambu, a guadua é milagrosa: “É maleável, tem longa durabilidade e ainda uma resistência físico-mecânica superior à em que acreditamos”. Marcelo Villegas, marceneiro que desenvolveu numerosos projetos com Simón Vélez, considera que, graças a sua leveza, flexibilidade e estrutura tubular, é o material mais adequado para construir em áreas íngremes e com risco sísmicos.

Tal propriedade foi colocada à prova no terremoto que atingiu o eixo cafeeiro em 1999, provocando danos em mais de 50 mil edificações: as de alvenaria foram para o chão, enquanto as construções de bambu sobreviveram. Mesmo depois disso, Marcelo acredita que ainda falta maior reconhecimento ao valor do material na Colômbia. “Somos poucos os que acreditamos no bambu, mas, conforme ele é apreciado fora do país, há mais adeptos.”

Como o bambu foi da Colômbia para o mundo

 

Foi inevitável: a partir do momento em que Simón Vélez criou uma técnica de uso do bambu como elemento estrutural, começaram a surgir diferentes experiências que aproveitaram as qualidades do material. Com capacidade de crescimento surpreendente – na Ásia pode chegar a 1 m por dia –, é considerado amigável ao meio ambiente. Além do mais, por não precisar de transformação, consome pouca energia: depois de cortado, está pronto para ser usado. Foi assim que nos últimos 30 anos apareceram novas construções de bambu com desenhos elegantes e inusitados.

Um dos projetos que ganharam mais destaque é assinado pelo escritório Hentrich-Petschnigg & Partner (HPP): o estacionamento do zoológico de Leipzig, na Alemanha, inaugurado em 2004. A fachada foi revestida de varas de bambu com 10 a 12 cm de diâmetro presas com cintas de aço e espaço de 7,5 cm entre uma e outra, que garantem a boa ventilação. A atenção também se voltou para a reforma do terminal T4 do Aeroporto Internacional de Barajas, na Espanha, realizada pelo arquiteto inglês Richard Rogers em 2006.

A cobertura curvilínea, com vigas em S, recebeu um chamativo forro de bambu, que traz leveza à estrutura de aço. Do lado oriental do mundo, o arquiteto chinês Kengo Kuma, que se destaca pelo jogo de luzes e sombras em suas obras, participou da iniciativa de construir 11 casas ao longo da Grande Muralha da China, junto com outros importantes arquitetos asiáticos. The Great Bamboo Wall, a residência que projetou, se propõe a contrastar a transparência e a fragilidade do bambu com a imponência do grande monumento milenar.

O Bambu no Brasil

Nosso país também dá indícios de um crescente interesse pela gramínea. Um dos primeiros a utilizar o bambu em conjunto com outros materiais, como madeira e palha, foi o arquiteto carioca Cláudio Bernardes (1949-2001), também conhecido por ser o pioneiro no uso do eucalipto tratado. Outro exemplo é o engenheiro agrônomo Danilo Cândia.

Depois de pesquisar o material durante os anos 1990, ele criou em 2007, com a paisagista Renata Tilli, a empresa paulistana Bambu Carbono Zero, que fornece produtos derivados do material e presta serviços de consultoria. “O bambu é econômico, tem emissão zero de carbono e é muito competitivo em relação às madeiras, pois dá colheita o ano todo e jamais se esgota”, explica. O arquiteto e designer Paulo Foggiato, adepto dessa gramínea desde 2004, complementa: “A liberação de oxigênio na atmosfera é cerca de 35% maior que a de uma floresta com outras espécies, seja nativa ou não”. Danilo Cândia providenciou, em 1998, a compra e o tratamento de todos os bambus usados na construção do restaurante do Hotel do Frade, em Angra dos Reis, RJ: um imponente pavilhão de bambu projetado por Simón Vélez a pedido do arquiteto Antonio Borges.

Foi esse prédio que deslumbrou a bioarquiteta carioca Celina Llerena e mudou o foco de seu trabalho. Em 2002, ela fundou a Associação Escola de Bioarquitetura (Ebiobambu), em Visconde de Mauá, RJ, com o intuito de pesquisar e difundir os conhecimentos e as técnicas relacionados com materiais ecológicos, em especial o bambu. “Dos 42 gêneros do mundo, 38 são brasileiros”, destaca Celina. A variedade, no entanto, não se reflete na quantidade, já que muitos são de pequeno porte e crescem no meio de florestas. “É a matéria-prima deste milênio. Em vez de desmatar, você pode plantar e colher o bambu”, defende. A arquiteta chama a atenção para o potencial social do bambu, com o qual moradias populares poderiam ser construídas. Mas aponta a falta de domínio das técnicas de extração e construção como um dos entraves no Brasil. A recente aprovação da lei 12 484, em setembro deste ano, que criou a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu, deixou Celina esperançosa da criação de novos estímulos à cadeia produtiva.

Mesmo com uma presença crescente, o bambu é ainda associado às casas de litoral. No entanto, profissionais que trabalham com a gramínea, como Leiko Hama Motomura e Fábio Galeazzo, garantem que se encaixa em qualquer projeto contemporâneo. “A escolha passa pelas mesmas considerações que uma madeira passaria: tipo de textura, coloração, dureza, fibra etc.”, defende Leiko. “O bambu tem qualidades genuínas como leveza, rapidez e limpeza na instalação, além de ser um material centenário, já usado por outras culturas”, acrescenta Galeazzo.

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