Confira uma entrevista exclusiva com o pintor e arquiteto Carlos Lemos

Ao longo de seus 89 anos, o arquiteto Carlos Lemos acumulou muitos saberes e projetos. Entre eles, o do edifício da Agência Central do Bradesco, em frente ao Copan, em São Paulo.

O arquiteto Carlos Lemos formou-se em arquitetura pelo Mackenzie nos anos 1950 e hoje é referência no pensamento crítico sobre a paisagem urbana de São Paulo. Professor titular do departamento de história da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), ele sempre se dedicou com afinco ao magistério. Mas também assinou muitos projetos e chefiou o escritório de Oscar Niemeyer na capital paulista durante a construção do edifício Copan.

A pintura é outra de suas paixões, como ele conta na entrevista a seguir.

O senhor sempre teve vontade de ensinar?

Eu não imaginava ser professor. Quando era menino gostava mesmo de desenhar. Copiava as casas antigas e observava a evolução da arquitetura. Acho que foi a genética – meus ascendentes foram professores. Minha bisavó, por exemplo, criou uma cartilha que iniciava ensinando o abecedário e terminava com um conto de um escritor famoso e o aluno era capaz de ler. Assim, quando a FAU foi criada, em 1948, não havia professores e fui convidado a lecionar.

O que o senhor destaca em sua obra?

O edifício do Bradesco, em frente ao Copan. O Amador Aguiar, na época presidente, me chamou para fazer a Agência Central deles e me mostrou a foto de uma construção em Londres. Era um prédio neoclássico, ele não queria nada moderno. Mas no final das contas o convenci. A única exigência era apenas que a edificação tivesse janelas. Isso me levou a fazer colunas periféricas, com mais ou menos 1,50 m de distância umas das outras, formando as janelas. O fundo ficou escuro, criando aquele quadriculado branco e preto.

Que autores o inspiram?

Li escritores bárbaros, como o italiano Bruno Zevi, mas me defino com um arquiteto empírico. Na literatura brasileira, gosto demais do Guimarães Rosa. Li toda a obra dele, principalmente Grande Sertão: Veredas – esse eu li três vezes. Que música o senhor escuta? Escuto preferencialmente jazz. Gosto de Miles Davis e Louis Armstrong. O senhor também foi pintor.

Que artistas o influenciaram?

E eu não era amador, fui profissional. Antigamente existia o Salão Paulista de Arte Moderna e lá ganhei alguns prêmios. Minhas quatro obras premiadas estão na Pinacoteca. A pintura me emociona muito, eu amava fazer isso. Vendia quadros, fazia exposições, tudo junto com a arquitetura. Quem me influenciou inconscientemente foi Paul Klee. Também gosto dos renascentistas, principalmente de Paolo Uccello.

O que o comove na arquitetura?

Tive alguns impactos durante minha vida, mas depois acabei me esquecendo. Viajei muito para a Europa e a América, só não fui para a Ásia – nem quero. Se eu tivesse ido elegeria o Taj Mahal, acho que é uma obra impactante. Além disso, tem o Palácio dos Doges, em Veneza. Quando eu entrei junto com uma caravana de estudantes, vi o salão e fiquei abismado. Aquele espaço imenso, sem colunas, naquele tempo não existia concreto nem estrutura metálica. Lembro que comentei com o Oscar e coincidentemente ele também admirava essa obra.

E como era o trato com o Oscar Niemeyer?

Era ótimo! Fomos muito amigos e aprendi demais com ele, mas minha arquitetura é mais empírica. Até escrevi sobre isso em um livrinho. Chama-se Viagem pela Carne – o título faz alusão a um verso do Carlos Drummond de Andrade. Nesse livro eu conto como fui para o escritório do Oscar no meio do projeto do Copan, quando ele foi morar definitivamente em Brasília. Ele me passou o comando por meio de uma procuração e quando assinamos o contrato me presenteou com um autorretrato original do Le Corbusier, que está até hoje em minha casa. A última vez que nos falamos foi por telefone e ele me disse: “Carlos, a velhice é uma merda”.

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