Garimpando arte sertão adentro: os novos artesãos do rio São Francisco

Num barco que percorre o rio São Francisco, os donos de uma galeria em Maceió vão em busca de novos artistas e levam exposições aos povoados ribeirinhos.

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Garimpeiro da vida presente, o colecionador de arte estabelece relações de desejo com a pintura ou a escultura, sai em seu encalço e a traz para si, dando, ao conjunto delas, um sentido que, talvez, isoladas, não tivessem. Maria Amélia Vieira e Dalton Costa são colecionadores, só que diferentes dos demais. Colecionam para os outros. Sabe como? Passando o fm de semana em Porto da Folha, Ilha do Ouro ou Mato da Onça, cidades de lindos nomes que nem sabemos onde ficam. Pois Maria Amélia e Dalton sabem. Elas ficam à beira do São Francisco. Num barco-museu, os dois levam exposições e apoio educativo às populações ribeirinhas. Ali mesmo, descobrem novos artesãos. “Sempre há algum artista em algum lugar que ainda não foi reconhecido. A gente vai lá e o bota no mundo”, conta Maria Amélia. Assim, a galeria do casal em Maceió, a Karandash (do russo, “lápis”), ajudou a fazer brotar um buquê de arte popular: Antônio de Dedé, Resêndio, Véio – que foi levado à Galeria Estação, em São Paulo, e recentemente à Fundação Cartier, em Paris. É na arte em sua origem que Picasso afirmava mergulhar quando precisava de inspiração – não por acaso, a obra-ícone do século 20 é Les Demoiselles d’Avignon (1907), no MoMA de Nova York, inspirada em máscaras africanas. Maria Amélia e Dalton são capazes de descobrir onde o Brasil é mais Brasil, propiciando a mescla entre todas as formas de arte. Ambas, erudita e popular, são fruto do delírio, do sonho que habita aquele que faz arte. E, um dia, passam a habitar um espaço de delírio e sonho em nossa casa.

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Maria Amélia Vieira e Dalton Costa conhecem, na veia, aquilo que vivem e sentem no contato próximo, repetido décadas a fio, com quem cria, inventa ou mantém os fazeres artesanais. Em suas viagens sertão adentro, de Sergipe ao Pará, o que fascina no casal é a dedicação ao ofício de descobrir novos talentos e a capacidade de orientar corretamente o artesão. Há uma razão maior nisso: ambos são artistas de origem. Maria Amélia morou muito tempo no Rio de Janeiro e, depois, voltou a Maceió, sua cidade natal: “Em 1985, Dalton e a família dele, que moravam em Goiânia, resolveram retornar a Alagoas, terra de sua mãe. Logo na chegada, Dalton resolveu visitar minha exposição individual e… se apaixonou perdidamente”. Pela arte, pela cidade, pela filha, Joana, que ambos tiveram, e pela ideia da Karandash, o barco-museu, a galeria-coleção. Lá, é possível lavar os olhos com o que Maria Amélia e Dalton reinventam. Os objetos criados pelos dois têm evidente similitude com o que buscam sertão adentro. E guardam, ao mesmo tempo, uma profunda lealdade com o que cada qual busca, sertão adentro de si mesmo. Ela faz brotações de cerâmica, espinhosas como marcas pessoais, ou tecidos e pinturas com conotações fálicas, de imperativa presença e uma sensação de urgência; já Dalton cria o exato contraponto – uma sensação de permanência – com caixas herméticas, esconderijos, silêncios e signos delicados apostados às peças de madeira. Ir a Maceió é uma oportunidade – coisa rara! – de sentir a pulsação do ofício de buscar e criar a arte que une o casal.

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