Instituto Figueiredo Ferraz: um endereço de arte em Ribeirão Preto

Depois de décadas encaixotadas, as obras de arte adquiridas por João Carlos de Figueiredo Ferraz ganharam uma segunda casa, em Ribeirão Preto.

*Matéria publicada em Casa Claudia Luxo #31 – Novembro e Dezembro de 2012

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Se olhar com cuidado, é possível ver alguns pregos órfãos nas paredes da casa. São a lembrança das obras que ali foram exibidas durante 25 anos. Até pouco tempo atrás, o colecionador de arte João Carlos de Figueiredo Ferraz, paulistano que mora em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, desde 1982, não tinha mais nenhum centímetro livre para pendurar suas paixões. Grande parte do acervo, mais de 800 peças, permanecia encaixotada em uma fazenda. “Eu me sentia mal, pois ficava anos sem ver os trabalhos”, conta. A angústia acabou no ano passado, quando inaugurou na cidade o Instituto Figueiredo Ferraz, com o intuito de tornar pública sua coleção. As paredes da moradia, em contrapartida, tiveram de ceder as obras para o novo refúgio.

 

O economista começou a comprar arte nos anos 1980, ao visitar galerias e residências de artistas. Entre elas, estava a Casa 7, um ateliê ancorado na casa número 7 de uma vila no bairro Cerqueira César, em São Paulo, frequentado por Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Paulo Monteiro, Rodrigo Andrade e Nuno Ramos. “Comprava o que estava vendo e aquilo que era contemporâneo a mim”, diz. Uma das primeiras obras que adquiriu veio da Galeria Luisa Strina: um óleo de Jorge Guinle (1947-87), nova-iorquino radicado no Rio de Janeiro. “Na época, eu estava apaixonado pelo trabalho do artista holandês Willem de Kooning e quando vi o Jorginho reconheci uma abstração colorista semelhante. Hoje vejo que são completamente diferentes, mas é o mesmo tipo de manifestação”, revela o colecionador. Ao perambular pela casa, João Ferraz relembra histórias como a da escultura da mineira Iole de Freitas, realizada com estrutura metálica e tela: “É muito feminina. Parece um útero que se expande”,  diz. “Iole me fez prometer que nunca iria tirá-la da sala de jantar.” E não tirou. Outro trabalho significativo é um sarrafo de Mira Schendel, suíça radicada no Brasil, que, por ser muito delicado, não foi armazenado na fazenda. A caixa era grande e não havia espaço para ela na residência em que o economista morava na época. Restou colocá-la embaixo da cama – solução improvisada que durou seis anos. Ao se mudar, em 1986, para a casa atual, essa obra foi a primeira a estrear nas paredes. Depois de participar de diversas exposições no exterior, hoje pode ser vista no instituto.

 

Da casa para o instituto

Até seis anos atrás, João Ferraz cuidou de uma destilaria que virou usina de açúcar e álcool. Esse foi o motivo de sua mudança de São Paulo para Ribeirão Preto, em 1982. A atividade econômica e a paixão pela arte corriam em paralelo, sem atritos. Durante 20 anos, seu conjunto de obras foi ganhando corpo. Porém, como tudo ficava guardado, era difícil enxergar isso como uma coleção. Até que em 2001 chegou o convite do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo para fazer a exposição O Espírito da Nossa Época, sob a curadoria de Stella Teixeira de Barros. “Eu havia comprado obras em diversos lugares e cada uma tinha uma linha de representação. Mas, quando coloquei tudo junto, percebi que existia uma tremenda coerência entre elas”, lembra Ferraz. “Me dei conta de que não tinha um monte de obras, tinha uma coleção.” Uma década mais tarde, esse conjunto ganhou o Instituto Figueiredo Ferraz. Na época, ele tentou negociar parcerias com instituições e apoio dos governos de Ribeirão Preto e do estado de São Paulo. Sem respostas, decidiu levar adiante o projeto sozinho. Assim nasceu o instituto, projetado pela arquiteta Dulce Figueiredo Ferraz, mulher do colecionador e companheira na paixão pela arte. O prédio de dois andares soma uma área total de 2,5 mil m². Pinturas, instalações, esculturas, fotografias e videoarte são distribuídas nos 1,8 mil m² destinados à área expositiva.

 

Amplas janelas garantem a entrada de luz natural e o pé-direito alto permite surpreender os visitantes com peças de grande porte. A primeira exposição, O Colecionador de Sonhos, foi realizada em outubro de 2011, na inauguração do espaço, e teve a curadoria de Agnaldo Farias, amigo de longa data. Em julho deste ano foi aberta a nova mostra, Além da Forma, desta vez sob o comando de Cauê Alves. Logo na entrada, um óleo do pintor paulistano Fábio Miguez marca presença e traz à tona a abstração colorista que há 30 anos encantou o idealizador do instituto. Mais adiante, uma luz azul toma conta do espaço, originada da instalação Zero Hidrográfico, de Gisela Motta e Leandro Lima, que simula o movimento da água. O colecionador caminha pelos espaços de sua segunda casa com um sorriso no rosto que revela a felicidade de estar rodeado de suas paixões. “Adoro o que tenho e não me arrependo de nada”, afirma.

*Matéria publicada em Casa Claudia Luxo #31 – Novembro e Dezembro de 2012

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