Nova York se curva a Lygia Clark

Experimentação e convite ao envolvimento hipnotizam o público do MoMA, que faz fila para participar da individual que homenageia um dos gestos mais radicais e influentes da arte brasileira da segunda metade do século 20.

 

A mais provocativa das nossas artistas modernas, no mais importante endereço de exibição de arte moderna do mundo. São dois andares dedicados à produção de 40 anos da mineira Lygia Clark. Com filas e saídas emocionadas. Não por acaso, o filho da artista, Álvaro Clark, pouco afeito a se pronunciar em nome da mãe, declarou na abertura da primeira exposição no Hemisfério Norte de uma das mais profícuas matrizes do experimentalismo dos anos 1960: “Minha mãe fez arte como quem assume uma missão. Uma missão que se completa agora”. O título da individual traduz a direção imperiosa da trajetória de Lygia Clark: o fim da distância entre espectador e arte. The Abandonment of Art, o abandono da arte, é uma síntese clara desenhada pelo curador, Luis Pérez-Oramas, coordenador de arte latino-americana do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, que havia muito articulava a montagem, que tem atraído o público do circuito de arte nova-iorquino. “Lygia Clark é a mais influente e complexa artista brasileira da segunda metade do século 20”, declarou Pérez-Oramas na semana de abertura. Todo o quarto andar do museu é dedicado à remontagem de A Casa É o Corpo: Penetração, Ovulação, Germinação, Expulsão. Esse trabalho pertence a um dos momentos mais radicais de Lygia, os mais valorizados pela mostra do MoMA, que reúne 300 obras organizadas em três fases criativas: abstracionismo, neoconcretismo e abandono da arte. Realizada pela primeira vez em 1968, para a Bienal de Arte de Veneza daquele ano, a instalação sobre a experiência do nascimento se realiza com a participação do visitante, que entra e percorre o circuito sensorial proposto pela artista. Tendo começado pelo encanto com a arquitetura e o construtivismo, Lygia se cansou cedo da tela, do objeto. Do próprio conceito de exibição. Seus Bichos, dos anos 1960, grandes brinquedos geométricos e vertebrados que hoje compõem as mais disputadas peças de sua produção, foram um ensaio bem desenhado e fincado no lastro construtivo de sua formação. As peças estão lá, originais e réplicas disponíveis para a manipulação do público. Mas foram deixadas nos anos 1970 por uma busca maior da artista, que produziu, entre o Rio de Janeiro e Paris, o sensorialismo. Foi algo que levou além do útero ideológico dos anos 1960 e 70. Já não se tratava de uma abordagem política. Lygia acreditou na arte como cura e passou a persegui-la. No texto de apresentação da mostra, o museu define essa produção como “uma das mais fascinantes e complexas meditações sobre o corpo e sua presença no mundo, em todo o século 20”. 

Uma mostra de filmes contextualiza a experiência de Lygia Clark para esse público novo, da geração em que a interatividade faz parte de todos os processos diários. Mas que ali – em contato, entrando e saindo, passando a se tornar a própria obra de arte dos esquemas da artista – pode conhecer com os sentidos um tipo de arte que alargou os limites da própria criação. E transformou o espectador-visitante em matéria de criação

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