Originalidade máxima: entrevista com Renny Remarkers, do estúdio Droog

Co-fundadora do inovador estúdio Droog, onde atua como diretora de criação, a holandesa Renny Remarkers contou em entrevista exclusiva à CASA CLAUDIA sobre a sua vontade de ampliar as bordas do pensamento do design contemporâneo por meio do programa Design + Desires, que interliga sonhos e necessidades às experiências diárias dos cidadãos

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O que motivou a criação do Design + Desires ?

Assim como o estúdio Droog, o projeto, que faz parte da Droog Foundation, busca uma nova perspectiva para o design a partir da conexão dos sonhos, paixões, desejos e necessidades dos cidadãos com as suas experiências diárias virtuais e reais. É um programa de planejamento urbano que surgiu do meu interesse pelo assunto e cresceu junto com o Droog. Nossa inspiração veio da economia de serviços de Nova York. Em colaboração com escritório Diller Scofidio + Renfro, percebemos que o hábito de terceirização de todos os tipos de tarefas da vida das pessoas, em Nova York, incentiva os outros a inventar suas próprias profissões com pouco ou quase nenhum capital.

A Droog Foundation desenvolveu alguma experiência em solo americano?

Há cinco anos, realizamos um trabalho no estado de Nova York. Batizado de Open House, envolveu a cidade de Levittown, um subúrbio americano tedioso, com casas grandes e distantes umas das outras, sem lojas, supermercados e outras atividades no entorno. Pensamos: o que aconteceria se as pessoas fizessem algum tipo de negócio nas suas próprias casas? Desenvolvemos um evento de um dia no bairro, que aumentou a interação entre os vizinhos, a circulação nas ruas e possivelmente a renda primária da população. Provocados, os moradores criaram um novo papel para si. Isso devolveu vida à região e demonstrou o potencial dessa ferramenta. Ação semelhante ocorreu em Roterdã, numa área de imigrantes de diferentes nacionalidades, culturas e idades, muitos desempregados e pobres – que se detestavam. Alguns deles até com diploma universitário, mas que trabalhavam como motoristas e faxineiras para sobreviver. Imaginamos um jeito de usar nossa criatividade para integrá-los. Outro bom exemplo vem da parceria com a universidade de Cornell, nos Estados Unidos. No ano passado, pedi para alguns estudantes saírem a campo. Eles escolheram uma pequena comunidade formada por hippies e fazendeiros. Depois da pesquisa, retornaram com duas propostas interessantes. Uma das estudantes notou que os fazendeiros não tinham acesso às pessoas da cidade e, para resolver o problema, sugeriu um espaço com supermercados onde eles poderiam vender seus produtos e assim se conectar à vida urbana. Outro aluno percebeu que as pessoas nessa cidade eram muito sozinhas e o longo percurso entre as casas só poderia ser vencido de carro. Criamos então um espaço público entre as casas com ciclovias, hortas, jardins…Uma ideia simples, mas de grande impacto. Isso tudo tem uma relação muito próxima com a filosofia do estúdio Droog, pois nosso foco são as pessoas, sempre.

Você poderia dar mais exemplos dessa filosofia?

Fazemos um design aberto. Olha aquele aquário (estávamos sentadas no café da loja)! As pessoas o estão fotografando. Elas amam, dão risada, porque o aquário tem um restaurante chinês dentro. Anos atrás, fomos à China para copiá-los. Eles nos copiam, então decidimos fazer o mesmo. O aquário surgiu dessa viagem. Lá, todos os restaurantes têm um objeto desses na entrada das construções como símbolo de sorte. Para brincar com a ideia, colocamos o restaurante dentro do aquário. Isso é Design + Desire.

Como o design pode reinventar uma cidade?

É importante limpar a cidade e deixá-la mais bonita, mas só isso não basta. Devemos ir até as pessoas e perguntar como elas querem morar, começando numa escala pequena. Por exemplo, em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad fez uma pesquisa e descobriu que a maioria das pessoas queria ciclovias. Bom, se a maioria queria, vamos lá, certo? Não! Eu, ao contrário, veria a questão de outra maneira. Primeiro, eu olharia para os que são contra para descobrir seus motivos e assim encontrar a melhor saída para todos. Quem sabe construir ciclovias suspensas sobre a cidade, que não interfeririam na vida das pessoas e dos bairros, e permitir aos taxistas transportar mercadorias, além de pessoas? São ideias simples. Não fiz nenhuma investigação a respeito, é claro, mas esse tipo de atitude, de ouvir também a minoria, é fundamental. Só olhando para o todo se chega a uma boa solução.

De que forma o Design + Desires contribuiria para criar espaços públicos interessantes em São Paulo?

Design + Desires não é sobre coisas comuns como ter mais espaços públicos, bancos em praças, etc. Nós queremos ir mais fundo e, realmente, virar as coisas de ponta cabeça. No momento, estamos trabalhando com uma proposta para Amsterdã a fim de criar oportunidades e transformar de fato a vida urbana. Existem alguns bairros com habitações sociais dos anos 1970 e elas parecem todas iguais, não existe magia. Queremos ouvir das pessoas como elas construiriam suas casas se não houvesse nenhuma regulamentação ou norma. Colocariam sacadas? Coloririam as construções? O que fariam? Depois vamos discutir o assunto com políticos locais. Na Holanda, as casas tem visual padronizado. Queremos o oposto: a imperfeição e a liberdade de criar. Também estamos trabalhando num projeto que é parte da Bienal de Urbanismo e Arquitetura de Shenzhen, uma cidade chinesa típica, e Hong Kong, uma antiga colônia inglesa. Nossa primeira preocupação foi abrir um canal de comunicação online e, pela internet, conectar seus habitantes com pessoas no mundo inteiro que tenham desejos semelhantes ao de cada um deles. Usamos as mídias sociais para avaliar as diferenças entre as duas populações. A tecnologia facilita a comunicação e deixa tudo mais fácil. Quando descobrirmos seus anseios, incluiremos os designers no processo para descobrir a forma de melhorar a vida dessas pessoas. Não se trata apenas de ter bancos em praças, se trata de ouvir pessoas e criar um ambiente para elas. Nós não podemos preencher todos os desejos, mas certamente podemos fazer algo a respeito. E isso vale para qualquer faixa social.

Você ainda se envolve no processo de criação dos produtos do Droog?

Eu não estou tão envolvida como no passado, mas sempre imagino temas. Por exemplo, recentemente, sugeri uma linha sobre reuso de itens armazenados e parados em empresas. No começo do ano, imaginei também um projeto em Milão sobre ferramentas com pequenos conectores e parafusos. Estou, no momento, interessada no poder transformador do design.

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