30ª Bienal de SP: uma entrevista com o curador Luis Pérez-Oramas

A 30ª edição, com curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas, abre espaço para artistas pouco conhecidos -- 23 deles brasileiros -- e provoca o diálogo entre as obras

Num primeiro relance, a Bienal Internacional de Arte de São Paulo parece estar mais modesta em sua 30ª edição, que acontece entre 7 de setembro e 9 de dezembro, no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera. Participam 111 artistas, contra 148 da versão anterior. Poucos são imediatamente reconhecidos do público. A curadoria – liderada pelo venezuelano Luis Pérez-Oramas, com André Severo e Tobi Maier como associados e Isabela Villanueva como assistente – procurou mesmo nomes em ascensão, em sua grande maioria. Desta vez, há menos brasileiros, 23 no total. Arthur Bispo do Rosário, o paciente de hospital psiquiátrico que criou centenas de obras feitas de restos da sociedade, é um dos “famosos” – na opinião do curador, ainda assim deveria ser mais valorizado, e não colocado numa categoria à parte, de artistas à margem da academia. Esta é uma das atenções desta edição: destacar aqueles que não se filiaram a nenhum movimento (nem ao mercado) e produziram por simples pulsão interna. Há também uma presença consistente de latino-americanos, somando 27 representantes de países como Venezuela, Colômbia e Chile. Por outro lado, sob o enigmático tema A Iminência das Poéticas, a mostra ambiciona apresentar perguntas sobre o fazer artístico e sua relação com o mundo frenético e mutante de hoje. Por isso, em vez de exibir as obras isoladamente, a proposta é formar um conjunto de diversas peças de um grupo de artistas para que dialoguem entre si, criando constelações abertas a várias interpretações. Algumas aproximam nomes contemporâneos de obras referenciais. Outras se espalham pela cidade, em locais como a Casa Modernista, a Capela do Morumbi e o Masp, abrindo uma relação com a metrópole e com outras formas de arte, como o cinema, o teatro e a música, para, quem sabe assim, romper o isolamento do universo das artes visuais. Leia adiante a entrevista com Luis Pérez-Oramas.

Que conceito norteia a bienal?

A articulação entre as ideias de iminência e poéticas é, para nós, curadores da 30ª bienal, nosso “motivo”. Não pretendemos que os artistas ilustrem ou representem nosso motivo. Apenas que suas obras entrem em ressonância com a constelação de perguntas que se pode deduzir de tal motivo. Como a arte contemporânea – e o que permanece entre nós das interrogações modernas – funciona em um mundo de iminências, de acontecimentos por vir, imprevisíveis? Como a prática artística responde, em última instância, a uma série de decisões poéticas, expressivas, discursivas, enunciativas e vocais?

Por que essas questões são relevantes hoje?

 

Todos se recordam de dizer que vivemos num mundo cada vez mais dependente de um estado de iminência, que os sistemas totalizadores de pensamento foram desmontados pela realidade, que as certezas quanto à realidade humana – as instituições políticas, o destino histórico, as linguagens, os acervos de memória, as unidades familiares, as nações – se desvanecem mais rápido que nunca na história. Devemos entender que a arte pode servir para que aprendamos a viver mais produtivamente esse estado de iminência. Precisamos aceitá-lo e usá-lo para transformar nossa existência – sem messianismo – por meio da arte e de suas poéticas. Isso me parece da maior atualidade.

Por que a distribuição dos trabalhos e dos artistas foi feita tendo como base constelações?

 

Tudo aconteceu de forma muito rápida. Partimos do princípio, básico no legado moderno sobre a compreensão dos sistemas simbólicos, de que os signos, as formas simbólicas (e a arte é isso, para além de todas as vanguardas) não têm significado em si mesmos a não ser quando estão relacionados entre si e com outras formas, símbolos, estratégias expressivas. Buscamos imaginar uma bienal que supere definitivamente o mito romântico da obra genial, que existe como uma entidade autossustentada e absoluta. Isso nos leva a privilegiar os vínculos, as relações e nos faz necessariamente falar de constelações. O linguista Ferdinand de Saussure deixou claro, há mais de um século, que a estrutura da linguagem é constelar, parte de relações binárias. A linguagem funciona de forma diferencial. O que nos interessa então são os intervalos diferenciais entre as obras, que é onde reside o sentido. E isso só pode ser manifestado visualmente como constelação, atlas, sistema etc.

Como foram formadas essas constelações?

 

A 30ª bienal se manifestará de várias formas constelares: há constelações de imagens no catálogo, há constelações descritivas no guia, existe um audioguia que propõe as relações na montagem, existe a constelação de obras fora do pavilhão da bienal. Finalmente, há a constelação da própria instalação, em que, obviamente, tivemos de lidar com aspectos inúmeros, como as exigências dos artistas, o requerimento das obras, as possibilidades e os limites do edifício etc. Duas dessas constelações me interessam sobremaneira: uma referente às obras que se manifestam por meio de tipologias, basicamente no espaço climatizado, e outra constelação referente às reações complexas e contraditórias entre a linguagem e a imagem, localizada no segundo andar do edifício da bienal.

Que artistas relativamente pouco conhecidos do grande público no país devem surpreender os brasileiros, na sua opinião?

 

Jiri Kovanda, Juan Luis Martínez, Sheila Hicks, Frederic Bruly-Bouabré, Fernand Deligny e Tehching Hsieh são alguns deles.

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