Dia da Mulher: como elas se sentem representadas na arquitetura

Convidamos quatro arquitetas para falar das dificuldades que a mulher sofre na arquitetura e mostrar a importância da representatividade feminina no ramo

O Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8 de março, é um dia de luta: para que todas as mulheres sejam tratadas de igual para igual, pelo fim da violência contra as mulheres e para que elas possam ocupar os seus lugares – que são todos aqueles que elas desejem ocupar.

O percurso pela igualdade é longo e árduo, e ainda temos muito pelo que lutar. Para falar sobre as dificuldades e preconceitos que a mulher sofre na arquitetura e mostrar a importância da representatividade feminina no ramo, convidamos a arquiteta e militante do movimento negro Joice Berth, a dupla Fabricia Zulin e Renata Coradin do escritório Habitar Arquitetas Associadas e a arquiteta Deborah Roig.

 (Divulgação/Revista CASA CLAUDIA)

Confira a entrevista abaixo em que elas contam sobre os preconceitos que já sofreram na carreira, sobre os conselhos que ouviram e os que decidiram deixar de lado e sobre como elas acreditam que as cidades seriam se fossem projetadas por mulheres:

As mulheres já competem de igual para igual no mercado? O que poderia ser feito para mudar esse panorama?

Joice Berth: Não, a mulher não compete de igual pra igual no mercado de trabalho. Na verdade, temos um mercado muito desigual e sexista. A mulher acaba ocupando espaços que têm o estigma de serem essencialmente femininos, como a decoração. Mas nós devemos ter o direito de escolher estar em outros espaços dentro da arquitetura e urbanismo, propondo coisas que são colocadas como sendo somente masculinas. Precisamos de apoio e articulação dos órgãos que defendem os interesses da categoria, como o CAU e o SASP, para entrarem na briga contra o sexismo dentro da profissão e criarem condições para que haja inclusão e participação real das mulheres.

Fabricia Zulin: O mercado de trabalho continua desigual. Por mais que as mulheres sejam maioria nas faculdades de arquitetura, vemos que os homens lideram a maioria dos escritórios. Eu acredito que um modelo de trabalho mais flexível ajudaria no fortalecimento da presença da mulher no mercado, porque muitas vezes acabamos carregando nos ombros o dever de ter que realizar muitas tarefas ao mesmo tempo e essa obrigação não é sensata.

Deborah Roig: Eu acredito que a preparação e o nível técnico dos candidatos, seja homem ou mulher, são idênticos. Estudamos nas mesmas universidades, trabalhamos nas mesmas empresas, enfrentamos os mesmos desafios. O sexo do profissional não é indicador de mais ou menos competência. Mas as mulheres, quando ocupam um cargo de destaque como uma gerência ou uma diretoria, recebem salários menores.

Em algum momento você já se sentiu prejudicada, não reconhecida, ou sofreu algum preconceito na carreira por ser mulher?

Joice Berth: Sim, não só por ser mulher, mas também por ser mulher negra. Existe uma dificuldade muito maior das mulheres negras de inserção no mercado de trabalho. Eu fui muitas vezes prejudicada, limitada, podada, desmerecida, silenciada. É uma situação recorrente. A voz das mulheres é muitas vezes negligenciada. Um exemplo: quando você pergunta para alguém sobre as grandes referências da arquitetura, você ouve muitos nomes masculinos, são pouquíssimas mulheres, como Lina Bo Bardi e Zaha Hadid, que conseguiram furar esse bloqueio.

Fabricia Zulin: Sim, já sofri preconceito na carreira por ser mulher. Foram situações sutis, mas só ocorreram por eu ser mulher. Eu frequento muitos canteiros de obra e já ouvi comentários do tipo: “você precisa ser menos educada”, para não dizer delicada, “com a peãozada tem que ser mais bruta”. Eu sempre respondo que não é assim que se conquista o respeito de ninguém. Me parece um pensamento atrasado definir que certas atividades são para mulheres e outras para homens.

Renata Coradin: No mundo acadêmico, por seguir uma linha de pesquisa relacionada a arquitetura e gênero, já me deparei com pessoas que não achavam que gênero fosse um assunto importante para ser estudado no meio acadêmico. O nome do nosso escritório (Habitar Arquitetas Associadas) também costuma causar estranhamento por estar no feminino.

Deborah Roig: Já.Uma vez eu participei de uma concorrência para um grande projeto corporativo e o diretor da empresa me chamou para negociar valores. E o que ele alegou como fator para eu poder dar um desconto é que eu era mulher e que os meus gastos não poderiam ser iguais aos do meu concorrente, que era um pai de família. Existe uma imagem de que a mulher trabalha para cobrir os gastos pessoais e que o empreendedorismo é exclusivo do universo masculino.

As cidades seriam diferentes caso fossem projetadas por mulheres?

Joice Berth: Sem dúvida! Não teríamos certos problemas que o planejamento urbano não engloba, não pensa ou pensa de forma incompleta. A não participação das mulheres nos espaços de poder e decisão dentro da arquitetura e urbanismo também influenciam no desenho das cidades. Vivemos em cidades totalmente segregadas, perigosas e hostis para as mulheres. Isso é reflexo de um planejamento que tem as marcas do sexismo e da misoginia que são as estruturas da nossa sociedade.

Fabricia Zulin: As mulheres têm uma percepção mais apurada e eficaz com relação, por exemplo, à segurança dos espaços. Eu acredito que a vivência e as experiências das mulheres contribuiriam com soluções diferentes e eficientes para a cidade e isso deve ser valorizado. A partir do momento que todos puderem contribuir de maneira igualitária sobre os projetos da cidade, com certeza teremos espaços mais completos, mais acolhedores e mais humanos.

Renata Coradin: Tenho certeza de que as cidades seriam diferentes se a perspectiva das mulheres estivesse incluída nas experiências para construí-las. As cidades deveriam ser projetadas por homens e mulheres, e as experiências de todos os coletivos deveriam ser consideradas. A rotina das pessoas não é linear e as cidades precisam considerar isso. As necessidades das mulheres não é a mesma que as dos homens, das crianças, dos idosos, dos adolescentes…

Qual foi o conselho mais importante que ouviu na sua carreira? E qual decidiu deixar de lado?

Joice Berth: O mais importante foi o que eu decidi deixar de lado, que foi quando me falaram que arquitetura não era lugar para mulheres negras, para pessoas negras, para pessoas pobres. Eu resolvi não escutar e estudar o que eu queria porque eu acredito que a gente precisa ocupar os espaços. A gente não está lá porque bloqueiam a gente, não porque não temos capacidade.

Fabricia Zulin: O mais importante foi para que eu nunca desviasse o foco daquilo que eu acreditava. Uma vez me disseram para não fazer alguns projetos de habitação popular, porque eram muito complicados e pouco rentáveis. Ainda bem que eu não segui esse conselho porque foi esse trabalho que projetou o nosso escritório Habitar Arquitetas Associadas para todo o país.

 

CASA CLAUDIA recebeu no dia (08), Dia Internacional da Mulher, a arquiteta Patricia Anastassiadis, que comanda um dos maiores e mais importantes escritórios de arquitetura do Brasil, e Luiza Dias Coelho, do coletivo Arquitetas Invisíveis, ação que busca promover a igualdade de gênero na arquitetura e urbanismo. Com mediação da nossa Diretora de Redação Eliana Sanches, elas falaram no Mlive – um evento para marcar a importância do dia 8 de março –, sobre a representatividade das mulheres na arquitetura e urbanismo.

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