Em nova coleção, irmãos Campana resgatam o valor do artesanato brasileiro

Depois de conquistarem o mundo com peças irreverentes e cheias de originalidade, Fernando e Humberto Campana voltam o olhar para o artesanato brasileiro

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Contar histórias e mudar as histórias. Há algum tempo os irmãos mais renomados do design mundial (que nos perdoem os Bouroullec) buscam direcionar suas energias para ações transformadoras. “Não queremos simplesmente fazer uma cadeira. Queremos fazer móveis que tenham uma razão para existir”, diz Humberto Campana. Com 33 anos de uma bem-sucedida carreira, a dupla paulista já conquistou a liberdade de escolher para quem e com o que deseja trabalhar: continua criando itens para importantes marcas internacionais, mas reconhece que o entusiasmo de hoje vem da parceria com artesãos brasileiros. “Quando nos unimos a eles, resgatamos uma tradição, promovemos um ofício e a autoestima do grupo. Essa troca também nos enriquece como profissionais e traz frescor para nossa produção”, afirmam. Em junho, os dois estreiam uma linha de luminárias feitas por bordadeiras de Alagoas e Sergipe. “Essa é a primeira vez que elas trabalham com a tridimensionalidade, o que representou um grande desafio para todos”, comenta Renata Piazzalunga, coordenadora do projeto Fusões e Inserções, orientado pelo Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI) – com patrocínio do Sebrae Nacional e do governo do estado de Sergipe. As peças, que trazem os rostos das artesãs bordados em tecido branco, estarão expostas no Centro de Referência do Artesanato Brasileiro (Crab), inaugurado no Rio de Janeiro. “Não interferimos na técnica, mas ampliamos as possibilidades de concepção”, garante Fernando, o extrovertido da dupla. Outra experiência marcante para ambos aconteceu durante o desenvolvimento da coleção Cangaço, lançada no ano passado na Firma Casa, com o cearense Espedito Seleiro. “Foi um trabalho de alta-costura que nos surpreendeu pelo resultado e pela repercussão. A combinação de cores e as formas curvas da mobília definidas por nós realçaram a estética barroca desse mestre coureiro”, consideram. O desejo deles de compartilhar saber, aliás, tem sido tão grande que, desde 2014, frequentam a Favela do Moinho, no centro de São Paulo. “Dou aula de criatividade para crianças de 10 a 12 anos às sextas-feiras”, revela Humberto. A aproximação dos designers com a comunidade se deu por intermédio de uma missionária, convencida a mudar a realidade do lugar. “No início, tínhamos medo da violência dos meninos, mas fomos ganhando a confiança deles e conseguindo organizar o galpão da ONG, onde permanecem quando estão fora da escola. Construímos armários, implantamos biblioteca e oficinas de arte”, revela Ana Paula Moreno, gerente do Estudio Campana e voluntária no projeto. E as boas ações não param por aí. Depois de fundarem o Instituto Campana em 2007, com o intuito de promover atividades culturais e ações educativas, eles planejam construir um museu com o acervo completo de suas obras e um jardim botânico em Brotas, cidade na qual viveram até se mudarem para a capital paulista. “Compramos um sítio de 33 alqueires e plantamos ali 15 mil mudas de espécies nativas. Hoje, vemos os animais migrando para nossa propriedade, pois o interior de São Paulo trocou as matas por plantações de cana-de-açúcar. Queremos encontrar um parceiro que nos ajude a levar adiante essa ideia”, revela Humberto sob o olhar de aprovação do caçula, que completa: “A vida já nos deu tanto, agora chegou a nossa vez de retribuir”.

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O sucesso dos irmãos Campana pelo mundo

Humberto e Fernando Campana estabeleceram, em 1998, a primeira parceria com a empresa italiana Edra, sob a direção artística do arquiteto Massimo Morozzi (1941-2014), considerado pelos designers um mentor e amigo. “Massimo era onírico, um Fellini (Federico Fellini, o diretor de cinema). Tinha olhar irônico e ia na contramão de tudo. Ele teve papel fundamental em nossa trajetória e lapidou o que éramos: uma pedra bruta”, avalia Fernando diante da foto do arquiteto italiano na parede da sala do irmão, no estúdio em Santa Cecília, onde trabalham desde 1992. De lá para cá, a carreira internacional dos designers só ganhou força e prestígio, com peças assinadas para diversas empresas estrangeiras. Este ano, em Milão, eles apresentam três produtos: lâminas de madeira para a Alpi nos padrões Pirarucu e Piaçava; o bufê Aquário para a espanhola BD Barcelona Design, composto de pínus e vidro colorido; e o espelho-luminária de aço inox com acabamento de ouro, da italiana Ghidini. Há, no entanto, outros projetos em andamento. Para a Alessi, eles desenvolvem um porta-vinho, a ser apresentado na feira Maison & Objet de Paris, e, para a Edra, concebem um sofá com nova tecnologia, que, de tão complicado, teve o lançamento adiado. Exigentes quanto à qualidade e ao acabamento de suas peças, os irmãos só se permitem mostrar seus projetos quando estão finalizados. A maturidade dos dois os liberou para trabalhos independentes. “Mesmo assim, não há como não ter o olhar dele no que eu faço e vice-versa. Essa união é indissolúvel, sem querer eu intervenho”, diz Fernando. “A gente se ajuda a realizar o sonho. Quando um está mais frágil, o outro dá a mão”, conclui Humberto.

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A mesa lateral de bronze Ofidia (2015), o sofá de pelúcia Bolotas (2015) e a mesa de bronze Animal Center (2016), com tampo de marchetaria, fazem parte da exposição Manufatura, que vai até 22 de maio na galeria Carpenters Workshop, em Paris. O bufê Aquário (2016), criado para a BD Barcelona Design, e o espelho-luminária Kaleidos (2016), da Ghidini, são novidades da Semana de Design de Milão, dos dias 12 a 17.

 

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