Kees Christiaanse: “São Paulo tem um potencial enorme”

O arquiteto holandês esteve em São Paulo liderando o júri prêmio Schindler Global Award e conversou com CASA CLAUDIA sobre o futuro da cidade

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 (Divulgação/)

À frente do escritório Kees Christiaanse Architects & Planners e da divisão de Arquitetura e Urbanismo no Instituto para Design Urbano no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, o holandês Kees Christiaanse se sente à vontade no Brasil: “Eu acho que as pessoas brasileiras são ótimas e a relação com a Europa é muito forte”, contou em entrevista à CASA CLAUDIA.

O arquiteto esteve em São Paulo para a deliberação do júri do prêmio Schindler Global Award, que neste ano deu a alunos do mundo inteiro a missão de repensar o complexo do Ceagesp, e revelou muitas de suas impressões da cidade. Confira, abaixo, o bate-papo completo com Kees Christiaanse:

Em comparação com outras cidades grandes que você conhece e nas quais já trabalhou, o que você considera ser bom em São Paulo?

Eu acho que São Paulo é uma das maiores cidades do mundo e muitas cidades grandes no mundo são como monstros. Então, de certo modo, São Paulo é um monstro. Mas ela também tem qualidades e potenciais enormes. São Paulo tem um bom abastecimento de água, em termos de chuva e assim por diante, e há uma grande vegetação tropical. Então, se houvesse uma boa governança e uma boa administração de água, a cidade conseguiria ser ao mesmo tempo muito densa e verde e muito limpa em termos de água.

O que eu acho que é bem único em São Paulo é a relação entre construções altas e baixas. Há uma enorme quantidade de torres, mas a superfície do desenvolvimento baixo também é considerável. A qualidade das construções baixas – especialmente para as classes sociais mais baixas – é muito importante porque você pode sentar na rua e fazer um pouco de atividade econômica. E isso não pode ser feito de um apartamento. O modelo de São Paulo, com construções baixas bem densas com muita população, complementadas com torres em posições estratégicas, é um modelo muito bom, na verdade.

O que você considera ruim em São Paulo?

O que é uma catástrofe total é o transporte e eu acho que São Paulo deveria olhar para Pequim e Xangai e outras cidades chinesas ou Singapura, onde foi criada uma rede abrangente de metrô em dez anos. Então eu acho que transporte público, infraestrutura limpa e limpeza do sistema de água são as primeiras prioridades para deixar São Paulo sustentável. E eu acho que tem um potencial enorme.

Eu acho que o que é muito importante é que densidade não signifique que só existam shoppings e espaços comerciais e residenciais, mas também atividade industrial. A interação entre as atividades industriais de grande escala e os espaços comerciais e residenciais dentro da cidade é extremamente importante. Se você for para diferentes distritos de construções baixas em São Paulo você também vê muito trabalho à mão e produção em pequena escala ainda funcionando. E a cidade deveria estimular que isso seja mantido.

HafenCity, em Hamburgo, Alemanha. HafenCity, em Hamburgo, Alemanha.

HafenCity, em Hamburgo, Alemanha. (Reprodução/Fairmont Hotel Vier Jahreszeiten)

Há algum projeto que você viu na sua cidade ou país que você acha que funcionaria bem em São Paulo?

Eu trabalho mais na Europa e na Ásia, não trabalhei nas Américas ainda, além de Toronto. Nós projetamos o HafenCity, em Hamburgo, Alemanha, que é uma área portuária que foi redesenhada em um centro urbano de larga escala 50% residencial. E esse lugar faz uso de alta densidade e é bem sucedido. Todos os andares térreos são compostos por restaurantes e lojas e há uma grande variedade residencial, desde apartamentos acessíveis aos de luxo. Há escritórios, um novo prédio da orquestra filarmônica, assinada por Herzog & de Meuron, e universidade. É um dos projetos mais exemplares na Europa.

Qual é a importância de centros culturais?

A qualidade de uma sociedade é muito dependente do nível de educação da população. Então, consequentemente, o sistema de educação é muito importante e com o sistema de educação ficam os centros sociais e educação cultural também. O que significa que os museus, clubes sociais e organizações que estimulam atividades culturais são importantes na cidade inteira – inclusive nas favelas. A educação é o passaporte para uma carreira, então você deveria começar por baixo. E eu acho que há um longo caminho pela frente. A mistura entre atividades educacionais, culturais e recreacionais e a abertura e o cuidado dos espaços públicos (vocês têm espaços públicos muito lindos) é muito importante.

Você acha que para uma cidade do tamanho de São Paulo nós temos museus, parques e centros culturais o suficiente?

Eu acho que vocês têm parques o suficiente. Eu acho que o trabalho é mais na recriação de ruas e praças. Porque muitas delas são perigosas à noite. Então eu acho que é uma questão de a sociedade reconquistar a rua e o espaço público. Eu acho que a política é educação, segurança, qualidade de espaço público e comunidades coletivas.

O que você acha do trabalho dos jovens arquitetos de hoje?

É difícil superar a arquitetura brasileira dos anos 50 e 60, porque é a melhor arquitetura já produzida no mundo, mais ou menos. Tudo depois disso tem que ser muito bom para equiparar essa qualidade.  Se você for para o Higienópolis, os prédios são lindos, é inacreditável. Paulo Mendes da Rocha também é ótimo. Mas há arquitetos hoje trabalhando aqui que são muito bons, como Angelo Bucci – ele está produzindo esse tipo de qualidade. Eu acho que o Brasil deveria continuar com esse modernismo supertradicional no contexto tropical. Em Singapura, a arquitetura dos condomínios contemporâneos é muito inspirada na arquitetura brasileira e esses condomínios agora são um modelo para outras cidades como Bangkok e Jacarta. É muito interessante. Mas se você comparar essa arquitetura em Singapura com os apartamentos aqui, a arquitetura de lá é muito melhor.

O caso é que não há experiência suficiente ainda com foco no design urbano. Nós temos projetos muito bons, como o de Fernando Melo e sua campanha para renovar as favelas, mas eles não são realizados de maneira suficiente e não há suficiente educação na universidade para lidar com isso. O que é necessário são arquitetos e paisagistas que estão no meio do caminho entre arquitetura e planejamento urbano e isso não é suficientemente desenvolvido. É um problema global, na verdade.

O júri do prêmio Schindler Global Award. O júri do prêmio Schindler Global Award.

O júri do prêmio Schindler Global Award. (Divulgação/)

Os vencedores do prêmio Schindler Global Award serão anunciados em abril.

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