Morre Olga Krell, a primeira diretora de redação de CASA CLAUDIA

Este texto, publicado originalmente em 2012, presta uma homenagem à grande dama da decoração brasileira, falecida nesta terça, aos 79 anos

olga krell - flavio torrer

Olga Krell, arquiteta, na Festa em comemoracao do Centenario de Victor Civita, fundador da Abril. (/)

Diretora de 1977 a 1990, a jornalista e arquiteta era uma desbravadora – não por acaso ficou conhecida como a grande dama da decoração brasileira ao tratar de assuntos como arquitetura e design de interiores na imprensa nacional. Olga ajudou também a alavancar a carreira de vários profissionais da área. No texto abaixo, nossa homenagem a ela: o perfil escrito pela jornalista Silvia Gomez, publicado, em maio de 2012, na edição de aniversário da revista. 

Olga Krell

olga krell - SILVANA GARZARO

Olga Krell na festa de inauguraÁ„o do novo apartamento do arquiteto LÈo Shehtman, em HigienÛpolis. (/)

A casa pode ser um documento fiel para conhecer uma pessoa, principalmente se essa pessoa for Olga Krell, arquiteta e jornalista incansável na divulgação do design de interiores no Brasil. Projetada por ela nos anos 1970, a construção com fachada de tijolos onde mora, no Morumbi, em São Paulo, parece tão singular quanto a dona, esta senhora de cabelo impecável e olhar arguto, que ainda trabalha todos os dias e não perde um evento da área. Lá dentro, um paredão de vidro deixa entrar a luz do jardim com costelas-de-adão e palmeiras – nada mais tropical. Há silêncio para se perder entre tantos móveis de família, painéis chineses, caixinhas preciosas e coleções, sobretudo de artesanato brasileiro. “Acredito na mistura”, afirma. Nas paredes, pinturas retratam sua beleza serena. Olhando para elas, difícil não pensar em sua trajetória, uma história que começou em Cracóvia, na Polônia, sua terra natal.

Viagem para o futuro

Olga Krell CORTADA

Olga Krell arquiteta e jornalista. (/)

Olga tinha 5 anos quando veio para o Brasil, fugindo com os pais da Segunda Guerra Mundial, em 1939. “Saímos com a roupa do corpo em 2 de setembro, meu aniversário. Lembro-me do cheiro das bombas”, conta. O pai, arquiteto, pagou por uma carona em um ônibus com soldados poloneses em retirada da cidade, prestes a ser ocupada pelos alemães. Antes, enviou parte do que tinha para um banco suíço e comprou brilhantes. “Parece novela. Ele forrou os casacos com as pedras porque sabia que seriam nossas moedas na jornada.” A fuga teve passagens por Turquia, Índia, Irã, Iraque e África do Sul, com hospedagens em casas de boas almas. “Na África do Sul, na Cidade do Cabo, freiras nos aceitaram em um orfanato para esperar o navio até o Brasil. Quarenta anos depois, voltei para agradecer, mesmo que para outras pessoas.”

Encontro com o Brasil

olgakrell - ROGERIO ASSIS

Data da foto: 2012 Olga Krell, exibe o artesanato da feira de Caruaru, foto de 1976. (/)

O primeiro porto por aqui foi Recife. Olga Krell nem tinha idade para imaginar que, muitos anos depois, o Nordeste e especialmente Pernambuco, seu artesanato e sua gente se tornariam uma de suas maiores paixões, simbolizada pela figura de uma grande amiga, a arquiteta Janete Costa (1932-2008), referência na valorização da arte popular brasileira. “Mas meu pai estranhou a cidade.” Seguiram para o Rio de Janeiro. Por fim, para São Paulo. Aos 17 anos, mudou-se sozinha para Ithaca, nos Estados Unidos: era a única mulher na turma de arquitetura da Universidade de Cornell, onde teve aulas com nomes como Frank Lloyd Wright e – sim – Charles Eames. “Esse, eu adorava porque, além de tudo, era lindo, o que ajudava a prestar atenção”, lembra com graça. Lá, professores perguntavam se ela não preferiria cursar prendas domésticas. Não, ela não preferia. De volta ao Brasil, trabalhou como arquiteta por um ano, mas faltava algo. Em 1963, um convite responderia a esse vago anseio. 

Vida de jornalista

olgakrell - arquivo - olga e civita

Data da foto: 1974 Roberto Civita e Olga Krell no lanÁamento do Calend·rio Pirelli. (/)

“Por que não trabalha com a gente?” A pergunta vinha de Roberto Civita (1936-2013), filho do fundador e então presidente da Editora Abril, Victor Civita (1907-1990). “Éramos amigos desde a escola e ele sabia que eu estava descontente”, lembra Olga. Começou na Cozinha Experimental de CLAUDIA. “No início, achei que ela era só uma grã-fina. Mas pelo contrário: trabalhava feito louca. E tinha um senso de humor fantástico”, conta o designer Attilio Baschera, na época diretor de arte da Editora Abril. Já na redação de CLAUDIA, produzia ambientes e mesas bem-postas. Logo vieram edições especiais sobre decoração e arquitetura, a partir de 1969. “Era difícil. Os arquitetos não queriam abrir seus projetos.” Porém as leitoras tomaram gosto e o resto é história: lançada como revista mensal em abril de 1977, CASA CLAUDIA se tornaria a maior publicação de decoração do país. Uma das marcas da direção de Olga, inspirada pelo encontro com Janete Costa, foi dar voz ao artesanato brasileiro, sempre presente nas reportagens – assim como em sua bela morada, até hoje. “A casa tem de ser como você. Minha mãe achava que a minha era uma feira livre: a prata inglesa junto do barro. Pois é como eu gosto.”

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