Museus e exposições movimentam a economia de pequenas comunidades

Fogo Island, no Canadá, Naoshima, no Japão, e as cidades costeiras de Margate e Folkestone, na Inglaterra, investem em projetos de arte grandiosos e atraem turistas

São poucos os lugares do mundo que têm um Monet para chamar de seu. Pois a pequena Naoshima, ilha de 3 323 habitantes no mar Interior do Japão, tem cinco, todos dentro do Chichu Art Museum, inaugurado em 2004. O mesmo prédio enterrado numa pequena elevação, com a assinatura de Tadao Ando, também guarda obras de Walter de Maria e James Turrell, feitas especialmente para os espaços. Os 8 km² de Naoshima entraram no mapa com a criação, em 1992, do projeto Benesse Art Site Naoshima, bolado pelo empresário Soichiro Fukutake e tocado em conjunto pela Benesse Holdings Inc. e pela Naoshima Fukutake Art Museum Foundation. A ideia é reforçar a economia local, prejudicada pela urbanização, ao mesmo tempo que coloca os habitantes das metrópoles em contato com um jeito de viver de antigamente, tudo por meio da arte. “Considerando a diferença entre os problemas das grandes cidades na nossa sociedade moderna e a situação nas áreas rurais, como as ilhas da região, eu comecei a pensar que a arte contemporânea carregada de mensagens críticas à sociedade moderna poderia ser capaz de transformar as áreas onde a paisagem escapou de ser contaminada pela modernização”, disse Fukutake em uma palestra.

Benesse House Museum

 

A primeira iniciativa foi o Benesse House Museum, também um projeto arquitetônico de Tadao Ando, com trabalhos de David Hockney e Alberto Giacometti, onde é possível se hospedar. Mas a expansão continua: em 2010, foi aberto o museu dedicado a Lee Ufan. E artistas como Tatsuo Miyajima e Hiroshi Sugimoto foram convidados a bolar trabalhos em casas abandonadas na ilha. Feliz com os resultados, Fukutake estendeu o projeto às ilhas vizinhas de Teshima, com 1 049 moradores, e Inujima, com apenas 54. É de dar inveja a qualquer habitante de cidade grande. Teshima tem Les Archives du Coeur, uma grande instalação de Christian Boltanski, que registrou batidas do coração de gente do mundo todo, e o Teshima Art Museum, parceria da artista Rei Naito com o arquiteto Ryue Nishizawa, que bolou um edifício em forma de gota para conter os trabalhos parecidos com água.

Em Inujima, o Art Project Seirensho reutiliza uma refinaria de cobre, remodelada por Hiroshi Sambuichi, com arte de Yukino Yanagi. No Art House Project, iniciado em abril de 2008, a arquiteta Kazuyo Sejima, em parceria com o diretor de arte Yuko Hasegawa, criou três galerias e um gazebo no meio da vila. Os projetos artísticos têm feito sucesso. De 2006 para 2010, só o Benesse House Museum viu seu número de visitantes pular de 77 298 para 143 853.

Fogo Island, Canadá

 

Do outro lado do mundo, em Fogo Island, Terra Nova, Canadá, Zita Cobb, nativa que virou milionária com empresas de tecnologia, voltou à sua comunidade natal disposta a transformá-la. Fundou a Shorefast Foundation para ajudar a ilha, que sofre com o declínio da pesca. Um dos seus braços é a Fogo Island Arts Corporation, que promove residências artísticas em várias áreas em estúdios ousados criados pelo arquiteto Todd Saunders – o primeiro foi inaugurado em 2010. “Se há algo que aprendemos é que a arte tem o poder de nos ajudar a descobrir caminhos e soluções que poderiam de outra maneira permanecer escondidas – talvez até um modo de aumentar o preço do peixe!”, declarou Zita Cobb na época da abertura.

Inglaterra

 

Na Inglaterra, outras comunidades de tamanho modesto fizeram o mesmo. Wakefield, de 80 mil habitantes, localizada no condado de Yorkshire, entrou no século 21 tentando recuperar-se do declínio das minas de carvão e das tecelagens. Uma das mais novas iniciativas nesse sentido é o museu The Hepworth Wakefield, com investimento de 35 milhões de libras e dono de um acervo com estudos da escultora Barbara Hepworth e obras de Henry Moore e Patrick Heron, entre outros. Com desenho de David Chipperfield, fica colado ao rio Calder e foi pensado como dez blocos independentes, com telhados de inclinações diferentes e sem frente definida. O vereador Peter Box foi direto: “Eu acredito apaixonadamente que a abertura do Hepworth Wakefield vai trazer benefícios reais para nossa comunidade, encorajando mais investimento no futuro da nossa cidade e colocando Wakefield no palco mundial como um grande centro para visitantes de todo o país e do exterior”. Parece ter dado certo: a nova galeria atraiu 300 mil visitantes em seis meses em 2011 – a expectativa era de 150 mil em um ano.

Foi mais ou menos a mesma experiência vivida por Margate, um balneário litorâneo de 57 mil habitantes no sudeste da Inglaterra cujo auge tinha ficado no passado. A filial do Turner Museum na cidade, também desenhada por David Chipperfield, alcançou 310 mil visitantes entre abril e novembro de 2011, o dobro do esperado para o primeiro ano. Melhor ainda, 85% do público viajou especificamente para vê-la. “Nossas pesquisas demonstram que estamos alcançando o objetivo de atrair visitantes locais, regionais, nacionais e internacionais”, disse a diretora Victoria Pomery em comunicado oficial. “Estamos felizes de saber que atraímos um novo público, pois 5% dos visitantes jamais haviam estado num museu.” Com vista para o mar, o novo prédio fica exatamente onde o pintor JMW Turner se hospedava na cidade. Assim como a obra do artista, que capturava a luz como poucos, Chipperfield encheu os espaços de claridade e revestiu o edifício, formado por seis blocos retangulares, de vidro opaco. O museu não tem acervo próprio, mas organiza exposições de artistas modernos e contemporâneos, além do próprio Turner, claro.

A menos de 40 km dali, a pequena Folkestone não abriu um museu, mas conta com um centro para promoção da cidade via artes e com uma trienal bem movimentada. Na última, encerrada em setembro, 19 artistas escolhidos por Andrea Schlieker, curadora, criaram obras especialmente para as paisagens da cidade litorânea – entre eles o brasileiro Tonico Lemos Auad, que espalhou carrancas pelo porto. Alguns desses trabalhos, como uma escultura de Tracey Emin da primeira edição do evento, em 2008, permaneceram em Folkestone. “Como não havia nem museu nem galeria aqui, as pessoas ficaram céticas na primeira edição. Mas nesta sentimos entusiasmo e ansiedade– todos queriam participar”, disse a curadora.

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