Ora Ito revela seu lançamento de Milão

Em visita ao Brasil, o designer Ora Ito se apresentou durante a ExpoRevestir e conversou com CASA CLAUDIA sobre seu trabalho e o que considera inovação

O designer francês Ora Ito

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Aficionado do trabalho de Oscar Niemeyer, o designer Ora Ito não se conteve em sua passagem pelo Brasil e aproveitou o pouco tempo que teve no país para visitar o máximo possível de obras do arquiteto carioca. “Me parece que estou dentro dos meus livros de história da arquitetura”, conta o francês que também é fã de Le Corbusier.

Ito Morabito de nascimento, adotou o pseudônimo Ora Ito para fugir da sombra do famosos pai, Pascal Morabito, também designer e muito conhecido na França. Ito despontou na área nos anos 90, após fazer uma brincadeira com softwares de desenhos em 3D e inventar produtos de marcas como Apple e Louis Vuitton que acabaram se tornando itens de desejo online mesmo sem existirem no mundo real.

20 anos depois deste start, no entanto, Ora Ito está mais off-line que nunca e, desde seu lançamento não convencional no mercado, vêm firmando parcerias (reais) com grandes marcas como Adidas, Heineken, Pucci, Hi Macs, entre outras, além de guiar projetos independentes, como o seu MaMo –  Marseille Modulor, um centro cultural de arte contemporânea em Marselha, sua cidade-natal. Palestrante da ExpoRevestir, ele conversou com Casa Claudia sobre seu trabalho e novidades que apresentará no próximo mês em Milão.

Você despontou em uma época em que o mundo se tornava online, quando a Internet dava seus primeiros grandes passos. Qual influência isso teve no seu trabalho?

Muita. Pois pude ser um dos primeiros a usar alguns programas que ninguém usava e disseminar meu trabalho desta forma alucinante que hoje nos é tão comum.  Penso que sou um pouco iniciador do uso dessas ferramentas, que na época ninguém usava e hoje são indispensáveis pra nossa geração. Pensar em um trabalho em 3D hoje em dia não é atípico, pois é o que mais usamos. Mas fiz esses projetos em 1998, eu só tinha 20 anos. E com isso eu tomei conta daquelas marcas e elas não sabiam como reagir, por que nunca havia acontecido isso antes. Então foi algo como “o que fazemos agora?”. Mas eles tiveram uma reação muito boa…

E isso é muito engraçado, pois hoje você provavelmente teria sido preso ou processado severamente…

Sim, hoje em dia eles não reagiriam bem, por que todo mundo faz isso que se tornou proibido. Eu penso que foi mais uma ego-gratificação que uma brincadeira. Mais ou menos como quando você não tem o acesso a alguma coisa, mas você quer muito tê-la e fazê-la, e aí você não tem o diploma, o compasso de ouro, mas mesmo assim cria algo que é único e que todos querem.

Mas você pensa nestes trabalhos mais como trabalhos de arte?

Nesse tempo eu já sabia que quereria ser designer, mas eu não sabia exatamente o que pretendia fazer. Eu estava apenas tendo ideias e dei um jeito de criar em cima delas e essa foi uma boa forma de me expressar. E hoje reconheço que se não fossem por estas ideias, eu não estaria onde estou hoje. O melhor foi eu ter me desenvolvido rapidamente e ter criado novas coisas depois disso e partir, digamos, para o off-line e para o real.

Além das peças pequenas você também tem desenhos de hotéis, trens… Você se sente mais confortável em desenhar em qual escala?

Eu gosto testar diferentes escalas, tamanhos, materiais e tipos de marcas. Do macro para o micro, do artesanal para o industrial, do mercado de massa para um mercado mais seleto. Isso é design. Eu não gosto de pensar “agora vou fazer só artigos de luxo ou só projetos industriais”. Para mim, é interessante ter flexibilidade e andar por diferentes caminhos. E se você tem a chance de se desenvolver em diferentes áreas, por que não? Hoje posso dizer que tudo me inspira a fazer novas coisas. De fones de ouvidos a torres residenciais.

Soube que você tem novidades que irá apresentar no Salão do Móvel de Milão neste ano. O que será?

Para Milão, fiz uma cadeira criada com a Casina. Era um sonho meu trabalhar com eles desde pequeno. Isso por causa de sua história e seus grandes projetos com Le Corbusier e Charlotte Perriand, entre outros designers. A Casina é muito grande na França e é um passo à frente poder escolher estar mais confortável para me expressar e ser parte de um time de designers que está no mesmo nível. Nós fizemos 15 protótipos até chegar a um modelo final, eles são muito profissionais e possuem a Patricia Urquiola recém-contratada como diretora criativa. Você sabe, ela dá palpite na cor que eu escolhi – e você também sabe… ela é a Patricia Urquiola. E, inclusive, não deveria estar te contando isso, não poderia dizer nem que estou fazendo uma cadeira! Já me puxaram a orelha para parar de contar por aí por que iremos apresentar em Milão (risos).

E você acha que é sempre melhor ter uma grande marca como parceira para criar?

Sim, claro. Eles tem o knowhow, a experiência, uma história toda que também é importante, de onde vieram, o contexto em que se adequam… Penso que criar com uma marca sempre existe uma troca de 50% com 50%. Quero dizer, sempre que estou fazendo um projeto bom e bacana, é porque a marca é muito boa e quando faço outros que não saem tão legais, a empresa também não é tão boa assim. É muito interessante entender o processo da marca e adquirir experiências, dividir conhecimentos, às vezes brigar também, inclusive. Mas, no fim, trata-se mesmo de um trabalho colaborativo em que vamos trocar pontos de vista e tentar ir aos limites do que podemos criar – o que para mim é muito importante. E hoje em dia eu posso dizer que tenho mais maturidade e experiência, e posso dizer que quero trabalhar com marcas que vão me acrescentar algo e me levar um nível adiante. Se não for dessa forma, há o risco de se ficar estacionado.

Você criou o conceito de “simplexity”. Você poderia contar um pouco sobre ele?

 Simplexity é uma maneira de tentar achar uma palavra para descrever o meu trabalho. Sempre me perguntavam “como você descreve o seu estilo?” e, sinceramente, fiquei cansado dessa pergunta sobre meu estilo.Então criei uma palavra que aglutina “simplicity” e “complex” (simplicidade e complexo). Acredito na possibilidade de criar coisas melhores apenas por elas serem simples. O que também é muito complexo, por quê, por trás do simples, alguém pensou e trabalhou muito até chegar à forma fina

Linha Pebble, que representa o conceito de Simplexity

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 O que é ser inovador hoje em dia?

 Penso que no dia-a-dia é preciso ser inovador. Inovação é muito importante e marcas que não fazem isso, morrem. Se você é um líder, é preciso inovar de alguma forma: seja testando novos materiais e novas tecnologias para achar o que funciona melhor hoje em dia, no modo em que vivemos. É importante estar atento a novas atitudes e novos comportamentos. Afinal, vivemos em um mundo diferente, com novos hábitos. Não somos mais os mesmos, estamos sempre olhando no celular, não precisamos mais de escritórios físicos. Por exemplo, temos muitos tipos de cadeiras hoje em dia, e não é importante que criemos muitas mais, mas que façamos cadeiras melhores, visando uma longa vida do produto. O que é um problema para os designers atualmente por que tudo se torna parte de uma tendência, como a moda, e acaba não sendo aquele design feito para durar.   

 E tem algum material que você pense que seja o futuro?

 Eu gosto muito de misturar materiais, de usar aquilo que irá valorizar mais o projeto e também de levar matérias para diferentes áreas. Tento, no entanto, usar plástico o menos possível no momento, pois já existe muito plástico no mundo, quase um continente inteiro. Como designers, temos a responsabilidade de pensar aquilo que irá agredir menos o nosso planeta. E por isso acredito na importância de criar coisas que durem por anos. É uma maneira de ser ecológico, mesmo se o material não for.

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