Piero Fornasetti: colecionador de imagens

Mesmo após quase 20 anos de sua morte, as criações do milanês Piero Fornasetti continuam a trazer humor e irreverência ao cotidiano.

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Piero Fornasetti (1913-1988) era um artista raro, dono de múltiplos talentos – pintava, desenhava, esculpia e ilustrava incansavelmente. Suas criações somam mais de 11 mil e nelas estão impressas as características que o consagraram: humor, irreverência, ousadia. No ateliê, localizado em um bairro tranqüilo de Milão, CASA CLAUDIA LUXO conversou com Barnaba Fornasetti, filho único que trabalha para manter vivo o legado do pai. No final dos anos 1970, Piero Fornasetti, a despeito de seu gênio criativo, atravessou uma grande crise financeira. Foi quando convidou o filho para se juntar a ele. Desde então, Barnaba reedita as criações do pai com muito rigor. Quase 20 anos depois da morte do artista, suas peças contam um importante capítulo da história do design.

Piero Fornasetti era um homem de muitos talentos artísticos. Alguém na família também tinha talento para a arte?

O avô de meu pai tinha aptidão para o canto lírico – uma bela voz, se é que isso pode influenciar. Aos 16 anos, Piero Fornasetti já desenhava muito bem, embora todos sonhassem para ele uma carreira na empresa da família, que importava máquinas de escrever. Ele teve de lutar contra tudo, e finalmente convenceu seu avô. Meu pai começou como pintor, mas sua estréia aconteceu mesmo com a litografia de desenhos e livros. Através dessa técnica, conheceu grandes pintores, como De Chirico, Giacomo Manzù, Massimo Campigli e Lucio Fontana, que passaram a freqüentar seu ateliê para imprimir as obras.

Fornasetti estudou na Academia de Brera, em Milão, e foi expulso por insubordinação. O que ele contestava?

Contestava o modo de ensino, a decadência da didática artística da Academia de Brera. Naquela época se valorizava muito a cópia de fotografias e quadros. Meu pai não queria copiar, mas sim estar em contato com o original, copiar do original, por exemplo, um corpo nu ao vivo. Vale lembrar que ele foi expulso mas depois reintegrado e ainda recebeu uma  bolsa de estudos. Com o dinheiro, zarpou em um navio para a África. Piero Fornasetti queria descobrir o mundo, era um designer de outro tempo, um artista completo.

De todas as profissões que exerceu, de qual ele mais gostava? Havia algum material com o qual Fornasetti mais apreciava trabalhar?

Ele se sentia um artista e nesse contexto se via como ilustrador, pintor, artesão. Sua paixão era criar. Quanto ao uso de materiais, isso era sazonal. Havia momentos em que se apaixonava pelo vidro e por um período produzia tudo com esse material. Houve o tempo do plástico, do tecido. Não existia um material que apreciava mais ou menos. Ele queria se divertir, procurava o prazer.

O trabalho de Piero Fornasetti tem uma aura de humor, de ironia, algo de surreal. O que ele expressa?

O segredo de Piero Fornasetti era caracterizar seu trabalho mixando um pouco de tudo, como um DJ com a música. E isso significava colocar humor, ironia, magia, metafísica e surrealismo em cada obra. Ele era um auto-irônico, típico do artista Fornasetti. Era quase impossível imitá- lo. Philippe Starck declarou que inveja essa característica de meu pai, pois era uma arma antifalsificação. A magia dele era grande fonte de inspiração. Meu pai tinha um espírito livre e fazia o que lhe dava prazer.

Como era a colaboração entre Gio Ponti e Piero Fornasetti?

Gio Ponti (arquiteto e designer italiano, 1891- 1979) trabalhava para a indústria do design e procurava um artista completo. Foi quem introduziu meu pai na arte da decoração de interiores. Tudo isso aconteceu nos anos 1940 e se tornou uma grande parceria que acabou nos anos 1960. Ponti tinha direcionado sua carreira ao racionalismo, aspirando à modernidade E o moderno não interessava a Piero Fornasetti, que até o final da vida continuou a fazer o que queria sem pensar em dinheiro. As grandes mudanças, como licenciar os produtos Fornasetti, nascem a partir do momento que eu assumi a empresa, depois da morte de meu pai.

É possível escolher alguma peça que resuma o espírito criativo de Fornasetti?

É muito difícil dizer, pois tudo o que meu pai realizou tem suas características. Ele tinha um lema: era contra as exigências do mercado, e talvez por isso a parceria com Gio Ponti chegou ao fim. Para ele, o design está ligado ao fato de que um objeto tem de durar, precisa fugir ao modismo, não podia ser passageiro. Era um pensamento que podemos chamar de ecológico.

Qual é o seu principal trabalho no ateliê?

Meu pai era um grande artista e um péssimo administrador. Quando assumi os negócios, me dividi entre a arte e a administração. Nos primeiros dez anos, tive de usar a matemática para saldar dívidas e tirar a empresa do vermelho. O artista que existe dentro de mim jamais deixou o administrador reinar sozinho. Sou o divulgador da marca Fornasetti e meu trabalho consiste em reeditar obras de meu pai, criar novas versões, sempre mantendo as linhas originais e, claro, recuperar arquivos esquecidos no tempo. O incrível é que ele deixou em seus arquivos uma enciclopédia com anotações que ajudam a reproduzir as peças e assim reeditá-las fielmente.

Como saber se uma peça é original de Fornasetti?

É muito difícil falsificá-lo. Muitos dos objetos reeditados que os falsificadores tentam vender como vintage acabam sendo descobertos, pois datamos tudo. Eles tentam sumir com a data, mas apagá-la não é simples e deixa rastro. Recomendo a quem queira comprar uma obra vintage procurar casas de artes e antiquários respeitados. Outro dado é que meu pai realizou mais de 11 mil objetos e eu herdei só 10%. No caso de cerâmicas e tecidos, a falsificação é ainda mais difícil devido à qualidade da matéria-prima.

Quantas empresas licenciadas hoje produzem itens de Fornasetti? É uma forma de democratizar seus produtos?

Nos anos 1990, apostamos em muitas empresas licenciadas para divulgar os produtos com a assinatura Fornasetti. Hoje percebemos que não vale a pena, pois nossa filosofia é atingir um público específico, que admire o design e esteja disposto a gastar com esse tipo de arte. Resolvemos concentrar o licenciamento em alguns produtos – como pisos e azulejos com a Bardelli, tecidos para decoração com Luciano Arcato, papel de parede com a marca inglesa Cole & Son, cerâmica com a Bitossi, que produz peças como vasos, e a Roubini Rag, que confecciona tapetes.

Entre muitas coisas que você aprendeu com seu pai, o que sempre carrega como um aprendizado?

São tantas coisas… Trabalhando ao lado dele fui descobrindo seus segredos, pontos importantes da decoração que para ele eram fundamentais. A qualidade de uma obra, a procura do valor de um objeto, a inspiração e a beleza clássica, que nunca sai de moda.

Qual é a importância do legado de Piero Fornasetti?

Creio que a sua marca registrada era o forte caráter, o valor artístico e a personalidade única. Qualidades ou defeitos que estão impressos em suas obras. Sua arte e sua técnica resistem ao tempo e isso é o que sempre almejei quando assumi os negócios. Por isso a monografia que estou preparando é importante para reafirmar esse artista que ainda hoje é moderno e continua a impressionar quem trabalha com design.

E quanto ao futuro da empresa?

É uma empresa pequena, com uma estrutura de produção pequena. A identidade não é industrial, e como conseqüência está cada vez mais difícil encontrar artesãos que desenvolvam processos manuais – por exemplo, o da laca. Penso que talvez no futuro não seja possível confeccionar, como queremos, cadeiras ou armários por razões tecnológicas. Por enquanto resistimos.

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