Stefano Seletti: o empresário da simplicidade

O italiano transforma objetos do cotidiano em sucessos de venda. Conheça mais sobre essa marca, presente da mesa do consumidor a acervo de museus.

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Semblante sereno, fala tranquila, roupas despojadas e um sorriso simpático. O italiano Stefano Seletti foge do estereótipo de empresário workaholic. Dono de uma das marcas para a casa mais descoladas do design mundial, a italiana Seletti, ele se conecta com o mundo dos negócios em outro ritmo. Vive no campo, no norte da Itália, e, para ir de casa ao trabalho, atravessa uma rua. Lidera a equipe de designers via e-mail, já que a maioria deles mora a milhares de quilômetros de distância. Não descuida da família e faz questão de dedicar boa parte de seu tempo à mulher, a paulista Adriana Toledo, e às duas filhas. Em visita recente ao Brasil, onde mantém há nove anos uma casa em Trancoso, BA, o empresário lançou a coleção Toilet Paper, com toalhas de plástico, canecas e pratos de ágata. A partir de novembro, seus produtos começarão a ser distribuídos pelo país graças a uma parceria com o grupo Viszla, de São Paulo. Na galeria abaixo, veja uma seleção de produtos da marca e, em seguida, a entrevista completa cedida à editora de CASA CLAUDIA, Regina Galvão.

Como e quando a Seletti estreou no Brasil?

Comecei vender aqui quando a dona Sonia (Sonia Diniz Bernardini, proprietária da galeria Firma Casa e da loja Conceito Firma Casa, ambas na al. Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo) comprou meus produtos na feira de Paris. Isso há uns sete, oito anos. A marca Seletti ainda era pouco conhecida na Europa, mas ela teve esse olhar apurado. Soube escolher a linha de produtos cotidianos que se tornou um grande sucesso mundial.

Qual é a proposta da Seletti?

Meu objetivo é fazer design para a classe média. Design que todo mundo possa comprar, bem democrático. Pena que o preço no Brasil tenha de ser tão alto. As taxas de importação encarecem meu produto, mas ainda assim consigo ter um preço acessível.

Você tem formação em design?

Não, fiz contabilidade no Instituto Técnico Comercial na Itália, mas comecei a viajar, aos 17 anos, com meu pai, Romano Seletti, para o Oriente, a China, a Tailândia. Ele começou vendendo artesanato para o mercado popular, vendia nas ruas. Só mais tarde focou na grande distribuição. Vender para as lojas foi uma evolução do negócio.

Como foi a mudança da empresa?

Paramos de importar produtos da China e eu comecei a interpretar os produtos do meu cotidiano. Peças que você encontra no supermercado. Peguei uma panela de metal e pedi para um artesão fazê-la em porcelana. O mesmo aconteceu com a garrafa de vidro, o prato de papelão e as fôrmas de alumínio. Mandei fazer toda essa linha. Isso foi de encontro a uma necessidade minha de buscar algo que não existisse no mercado. Deu tão certo que hoje 90% da minha produção se destinam a lojas de design e galerias.

O que te inspirou a investir nesses objetos comuns?

Não sei te responder. Foi um dia como este, um dia normal. Começou com a garrafa de vidro. E a resposta dos clientes veio rápida porque os produtos eram acessíveis. Representou uma verdadeira revolução na mesa, um estrondo de vendas. Tem também todo um pensamento ecológico nessa proposta: de tornar o descartável em peças duráveis.

E como prosseguiu esse trabalho?

A segunda linha que lançamos foi a Palace. Seis pratos sobrepostos que formam um prédio (reproduzindo construções italianas do século 18). Outros produtos foram surgindo. Nasceram com a mesa e depois com o lixo. É bacana perceber que as coisas comuns podem ficar ainda mais bonitas.

Como é a produção da Seletti?

Toda feita na China. Temos escritório em Beijing e um italiano o gerencia com mais sete chineses que trabalham para nós.  Em setembro, fundaremos a Selletti China, que nos vai ajudar vender por lá. Nosso próximo passo é produzir e vender nesse país.

E a equipe de criação? Como ela funciona?

São designers do mundo todo: tem uma coreana, um espanhol (Hector Serrano), que fez um porta-sabão líquido em formato de submarino, tem gente da Holanda, da Itália… Há itens que eu mesmo faço, como essa luminária de talheres que não precisou ser desenhada. Faço essa curadoria, essa seleção de designers e produtos. Recebo dois projetos por dia de designers do mundo. Vejo e respondo a todos. É uma resposta padrão, mas é uma resposta.

Você tem brasileiros nesse time?

Ainda não, mas gostaria de encontrar alguém. É meu próximo passo. Conheço os Campana, que a dona Sonia me apresentou, mas eles estão muito ocupados e, na verdade, temos mercados diferentes. Eles querem incrementar as galerias e o meu mercado é feito para a classe média. Tive uma conversa com os meninos do Superlimão, em março, eles são bacanas. Visitei também a Made (Salão Mercado de Arte e Design, realizado no Jockey Club São Paulo, no mês passado, durante o Design Weekend). Gostei de umas luminárias feitas de ferro de passar e outros objetos da casa, mas elas são difíceis de reproduzir industrialmente. Vi também os holandeses. Eles e os ingleses são as melhores estruturas mundiais para design. São muito protegidos pelo governo, que paga o espaço deles nas feiras e os hotéis. Eles têm uma grande cultura de design.

Você vai ter agora sua mercadoria distribuída aqui…

Sim, aguardei bastante por esse momento. A dona Sonia sempre me pediu para esperar por ela, esperar o melhor momento para a distribuição. A classe média já está pronta para consumir meus produtos. E eu estava ávido para desembarcar de vez aqui. Minha esposa é brasileira e tenho duas filhas com passaportes italiano e brasileiro. Temos uma casa em Trancoso (BA), comprada há nove anos. Estou casado há 13 anos e vim ao Brasil pela primeira vez há 15.

Você passa um briefing para os designers?

Na maioria das vezes, mas muitas vezes não. Aquele mobiliário (apontando para o armário em formato de vaca) surgiu depois de eu ver um móvel de porco na feira de Milão. O designer estava apresentando a peça e achei que seria interessante fazer algo de tamanho maior e também menor. Ele fez a vaca e o pato para nós. Ele se chama Marcatonio Raimondi Malerba, e vai crescer muito ainda. É mais artista do que designer, e ultimamente tenho trabalhado mais com arte do que com design.

Como na coleção Toilet Paper?

Sim, estamos usando imagens de dois dos maiores artistas do mundo nessa coleção, Maurizio Cattelan e Pierpaolo Ferrari. Maurizio fez sua última exposição no Guggenheim. Está acostumado a vender obras por 10 milhões de euros, mas decidiu fazer arte massiva, quer que seus símbolos se tornem tão conhecidos como o do “I Love NY”. As imagens ilustram as nossas toalhas de plásticos, as canecas e os pratos de ágata. São elementos pobres, mas que fazem parte de nossas vidas, peças que recuperam uma memória afetiva, memória de casa da avó. E design é isso, sensibilidade e, não, materiais caros.

Quais são seus planos para a Seletti?

Quero continuar me divertindo com o trabalho, mas tenho uma visão complicada para o que estou fazendo hoje no futuro. Você já ouviu falar nas impressoras 3D? Pois bem, acho que o futuro vai nessa direção. Em dez ou 15 anos, teremos uma dessas máquinas em casa como temos o forno de micro-ondas. Vamos comprar o desenho do produto e fabricá-lo em nossas salas. Estou certo disso e também muito preocupado porque tenho um armazém  cheio de produtos na Itália (risos).

Você já comprou sua máquina?

Vou visitar em outubro, na China, uma fábrica que produz impressoras 3D. Vou conversar com o dono, que está querendo uma colaboração minha e eu gostaria de comprar algumas dessas impressoras. Custam 1,5 mil dólares, não são caras, mas levam um dia para fazer um copo. Tem impressora de 10 mil dólares, que faz o copo em uma hora. Gostaria de comprar algumas dessas máquinas e colocar três em São Paulo, três em Nova York, três em Beijing, três na Itália e uma em Londres. Por 15 dias, a Seletti venderia um produto para essa impressora. Aperto um botão e sai este copo por encomenda. Você vai ver no jornal que os irmãos Campana desenharam um produto para a Selleti. Vai comprá-lo por 10 dólares e, em dez dias, você o receberá em casa.

Quais os materiais usados pela 3D?

Dá para fazer cerâmica, alumínio, resina. Vidro ainda não. Quero vender direto para o consumidor e, usando esse processo, não vou pagar taxas de importação porque o produto será feito no Brasil, na China, na Inglaterra…

Essas temporadas no Brasil são inspiradoras para o trabalho?

Claro, sou muito instintivo e passional e o Brasil é pura paixão. Aqui, reciclo minhas ideias e sempre encontro inspiração nesses momentos de relax. O telefone celular em Trancoso não pega e isso é maravilhoso. É o único lugar no qual eu desligo totalmente, é fundamental ter esses respiros.

Como é sua rotina na Itália? 

Tranquila. A gente mora no interior. De casa para o trabalho, é só atravessar a rua. Gosto disso. Meu pai deixou o suficiente para eu viver. Trabalho para ganhar, não para viver. Tenho muita sorte.

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