Uma entrevista com Theaster Gates, a revelação americana das artes

Galeria White Cube de São Paulo traz instalações, quadros e esculturas repletas de críticas sociais criadas por Theaster Gates. 

Uma entrevista com Theaster Gates, a revelação americana das artes

 (/)

Com propostas ousadas, o artista de Chicago, músico e militante negro Theaster Gates foi destaque na última Documenta, em Kassel, na Alemanha, maior evento de arte contemporânea do mundo. Para ter ideia, durante a Art Basel de Miami, em 2009, quando ainda era desconhecido, convidou os visitantes para subir em tronos de madeira reaproveitada, com 3 m de altura, e engraxou seus sapatos. O lucro dos trabalhos, vendidos rapidamente, foi aplicado em projetos assistenciais, prática que faz questão de manter. Os fragmentos dessas e de outras 17 obras do artista estarão reunidos até o dia 2 de novembro na filial da galeria inglesa White Cube, em São Paulo. Theaster, que esteve no Brasil para a inauguração da mostra, conversou com CASA CLAUDIA LUXO. 

 

Como você começou na arte?

O ambiente de construção foi muito importante para mim desde jovem, quando meu pai trabalhava como empreiteiro e eu ficava admirado com aquela arte. Entrei na faculdade e, quando tive minha primeira aula de cerâmica, o barro me fez pensar que minhas mãos poderiam ser muito criativas. Há 20 anos, me imaginava como um ceramista, mas nos últimos dez tenho vivido um casamento com design, arquitetura e artesanato.

Alguns jornais americanos disseram que você está redefnindo o que signifca fazer arte. O que é isso para você?

Arte é resolver problemas. Um artista quer apostar nas cores, na história, provocar emoção. Mas para mim isso se estende a alguns problemas no espaço urbano, como pobreza e falta de moradia. Tento identifcá-los e, de alguma forma, resolver. Parte aconteceu porque fui treinado para pensar nas cidades. Sou formado em urbanismo, trabalhava para o sistema de tráfego de Chicago e tinha consciência de seu crescimento e das mudanças lentas. Queria acelerar esse processo, e com a arte poderia ser muito mais rápido do que no meu trabalho diário. 

Uma entrevista com Theaster Gates, a revelação americana das artes

 (/)

Você trouxe fragmentos de 12 Ballads for Hughenot House, exibido na última Documenta, em Kassel. Como foi fazê-lo?

Juntei um time de 12 pessoas para pegar materiais abandonados de um casarão em Chicago e criar mesas, cadeiras e armários para ocupar um casebre histórico em Kassel. Senti que era necessário trazer esse trabalho para São Paulo porque aqui há extremos de riqueza e pobreza. Os objetos mostram a dignidade dos materiais – se você limpá-los e enquadrá-los, ficam belíssimos.

De todas as suas obras, qual considera a mais importante?

Minha exibição sobre a Johnson Publishing Company, na White Cube de Londres. Essa editora me deu 18 mil livros sobre literatura negra e eu construí uma biblioteca temporária com eles. Era linda! E foi uma oportunidade de os britânicos experimentarem a educação em um lugar que é voltado para o comércio.

Como é ser ativista e fazer arte política nos Estados Unidos?

Não me sinto como um artista ativista, acho que sou uma pessoa preocupada com o mundo. Nós devemos fazer a nossa parte, com ou sem o título de ativista. Quando você pode vender um quadro por milhões de dólares e seu estúdio fica em um bairro pobre, isso o faz pensar na contradição ao seu redor. Para um artista com caráter e consciência, esse é um ótimo momento para lutar poeticamente, dizer o que está na nossa mente e fazer algo com isso.

Uma entrevista com Theaster Gates, a revelação americana das artes

 (/)

Comentários

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.